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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

#Livros - Os Perigos do Imperador, de Ruy Castro

 

Ilustração do perfil de D. Pedro II em tons de vermelho e branco, presente na capa do livro "Os Perigos do Imperador", publicado pela Tinta da China.

Sinopse

No ano de 1876, D. Pedro II, imperador do Brasil, embarcou num vapor rumo aos Estados Unidos da América para as comemorações do Centenário da Independência. A viagem de cortesia, relatada de perto pelo jornalista americano James O'Kelly desde que partem do Rio de Janeiro, tinha tudo para ser um amigável passeio cultural, enfeitado de belas parangonas. Nos bastidores, porém, planeava-se um tiro certeiro para alvejar o monarca durante uma apresentação do icónico circo Barnum & Bailey, abrindo finalmente caminho para a proclamação da República. 

Em Os Perigos do Imperador, Ruy Castro está de volta à ficção, mas sem perder de vista a experiência de grande biógrafo - a trama sucede-se, empolgante, a par da reconstituição habilidosa da atmosfera dos EUA e do Brasil do século XIX, com algumas das maiores personagens e dos maiores feitos da época, deixando o leitor entre os factos e a imaginação. 


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Opinião 

Depois de ter lido algumas biografias extraordinárias escritas por Ruy Castro, cheguei agora à leitura da sua ficção, ainda que nela se possa perceber a sua vasta experiência em biografar e a sua sensibilidade para oferecer uma narrativa envolvente e bem fundamentada. Em Os Perigos do Imperador, o autor mergulha num episódio específico da trajetória complexa de D. Pedro II, o último imperador do Brasil. A obra contextualiza bem o período do século XIX, marcado por transformações políticas, sociais e económicas que influenciaram a figura imperial, além de refletir sobre as tensões entre modernização, tradição e interesses políticos que permeavam a sua liderança, num continente onde estava cercado por repúblicas. O livro vem oferecer uma maior consciência sobre os perigos e dilemas enfrentados por esta figura, num momento de intensas transformações, onde fica evidente a importância de compreender este capítulo da História brasileira num contexto mais amplo e que nós, portugueses, sabemos muito pouco.


O livro oferece um vislumbre de D. Pedro II, quando decide participar nas comemorações do centenário da Independência dos Estados Unidos e aproveitar para conhecer o país e algumas figuras famosas da época, tanto da ciência quanto das artes. Com uma narrativa envolvente, onde o narrador participa pouco e o grosso dos registos pertence, maioritariamente, aos diários pessoais do imperador, às cartas que enviou e às reportagens americanas que acompanharam esta viagem desde o Rio de Janeiro. Apesar de estarmos perante um livro de ficção, o autor não deixou de dedicar-se a uma pesquisa rigorosa, sustentada por inúmeros registos históricos, que conosco partilha nestas páginas nem de apresentar o seu estilo característico, com uma prosa acessível, repleta de detalhes que captam a atenção do leitor do início ao fim. 


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A obra destaca as tensões entre as forças monárquicas e republicanas e os dilemas enfrentados pelo imperador diante das pressões internas e até externas. O autor oferece uma narrativa empolgante que revela os perigos e as responsabilidade do poder, bem como as nuances da personalidade de D. Pedro II, que era capaz de permitir a liberdade de imprensa, repleta de ataques pessoais, e que foi o único monarca a marcar presença na nova república americana, revelando o seu prestígio internacional e a sua erudição nas mais diversas áreas do conhecimento e sem esquecer o seu gosto pelo progresso tecnológico. Ressalvo ainda a capacidade do autor para transmitir a complexidade destas figuras históricas e dos conflitos do período de forma clara e estimulante. 


"Olho ao meu redor e vejo consumar-se aquilo que nem a gilhotina conseguiu - o fim da aristocracia." 


O principal personagem é, claro, o imperador D. Pedro II, figura central na narrativa e que se revela nos seus diários pessoais, ainda que não deixem de ter sido escritos com a convicção de que seriam lidos no futuro. As reportagens, ainda que escritas enquanto propaganda jornalística e com a intenção de vender jornais, também permitem uma imagem mais distanciada deste estadista. Afinal, fora do seu país, era respeitado e admirado, apesar de pertencer a uma corrente em declínio como eram as monarquias. As cartas dos conspiradores do atentado também permitem entender melhor o movimento republicano no Brasil e o quanto estavam dispostos a tudo para alcançar essa alteração no país, que se veio a concretizar alguns anos depois. Uma das particularidades é a forma como o autor retrata aspectos mais íntimos e complexos do imperador, o que permite ao leitor compreender as nuances duma figura histórica muitas vezes cercada de mitos e simplificações. 


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Ao ler Os Perigos do Imperador fiquei profundamente impressionada com a riqueza de detalhes, com a permissa inesperada e a narrativa instigante que o autor conseguiu criar e que me deixam com muita vontade de ler mais sobre esta figura. A forma como Ruy Castro retrata a complexidade do personagem e o contexto histórico faz com que o leitor se sinta parte daquele universo, parte integrante daquela viagem no continente americano. Foi uma leitura informativa e, acima de tudo, estimulante, que provocou emoções e questões que permanecem após o seu término e que recomendo a todos os interessados em História, política e biografias de figuras marcantes do Brasil, bem como a quem deseja compreender os bastidores do poder e as complexidades das conspirações republicanas da época. Diria que o seu único defeito é saber a pouco. 


"Um mês depois de minha chegada aos Estados Unidos, começo a compreender por que este país está destinado a dirigir os destinos do mundo. Não sei se isso será bom ou mau, e não creio que seja bom, mas assim será. É a pátria da iniciativa. Todos parecem ter uma ideia para botar em prática e vê-la prosperar." 


Os Perigos do Imperador destaca-se pela profundidade na análise histórica, combinada com uma escrita acessível e uma construção envolvente. A minha avaliação geral é bastante positiva, pois o livro consegue equilibrar rigor académico com uma narrativa fluida, tornando-se impossível de largar. Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já leste Os Perigos do Imperador? Conhecias o trabalho de ficção de Ruy Castro? O que achaste mais impactante na narrativa? Conta-me tudo nos comentários! 


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Wook | Bertrand 

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