expr:class='"loading" + data:blog.mobileClass'>

Subscreve a Newsletter

terça-feira, 8 de setembro de 2026

#Livros - Longe da Multidão, de Thomas Hardy

 

Capa do livro "Longe da Multidão" de Thomas Hardy (Editorial Presença). A imagem transmite uma sensação de isolamento e beleza campestre, com cores que sugerem a época e o cenário da história.

Sinopse

Longe da Multidão é um dos romances mais conhecidos de Thomas Hardy. Narra a história de Gabriel Oak e da sua grande paixão pela bela, independente e enigmática Bathsheba Everdene, que chegou a Weatherbury como herdeira de uma vasta propriedade rural. Mas a jovem é também pretendida pelo sedutor sargento Troy e pelo respeitável agricultor de meia-idade Boldwood. Ao mesmo tempo que os destinos destes três homens dependem da escolha de Bathsheba, ela descobre as terríveis consequências do seu coração inconstante. 

O jogo das personagens, com as sumptuosas paisagens rurais como pano de fundo, contribuiu para fazer deste romance notável um dos grandes clássicos da literatura inglesa. 


Buy Me a Coffee

Opinião 

Em Longe da Multidão, obra que solidificou a reputação de Thomas Hardy como um dos grandes romancistas ingleses, somos transportados para a idílica, mas também implacável, paisagem rural de Wessex. Hardy, mestre do naturalismo e do realismo literário, é conhecido pela sua profunda compreensão da vida no campo, explorando as complexidades das relações humanas, os ciclos da natureza e o peso do destino sobre os indivíduos. Publicado em 1874, o livro emerge em pleno período vitoriano, uma era marcada por profundas transformações sociais, económicas e culturais na Inglaterra. A obra destaca-se por apresentar uma protagonista feminina forte e independente, numa época em que as mulheres ainda lutavam por uma maior autonomia, desafiando as convenções sociais e os papéis de género estabelecidos. 


Thomas Hardy apresenta-nos Bathsheba Everdene, uma jovem e vibrante heroína que, ao herdar uma fazenda numa pacata região rural da Inglaterra, se vê catapultada para um mundo de responsabilidades e desejos inesperados. Aqui acompanharemos Bathsheba na sua jornada de autodescoberta, enquanto ela navega pelas expectativas sociais da sua época e pelas tentações de três pretendentes radicalmente diferentes. São eles o solitário e dedicado pastor Gabriel Oak, o rico e volúvel William Boldwood e o charmoso e inescrupuloso sargento Frank Troy. Com estas dinâmicas, o autor desvenda os dilemas morais e emocionais da sua protagonista, explorando os anseios por independência, amor e segurança num cenário que, apesar da sua aparente tranquilidade, pulsa com paixões reprimidas e escolhas que ecoarão por toda a sua vida. 


Podes ler também a minha opinião sobre A Casa da Felicidade


No início, é uma jovem vibrante e de beleza singular, mas sem posses ou recursos financeiros, até que, de repente, vê a sua vida transformada por uma herança inesperada, a propriedade de Weatherbury Farm. Longe de se resignar a um destino passivo, Bathsheba demonstra desde o princípio uma força e independência notáveis para os padrões da época. A decisão de gerir a sua própria quinta, assumindo o controlo da sua vida e dos seus bens, revela uma personalidade audaciosa e um espírito empreendedor que a distinguem numa sociedade predominantemente patriarcal. Mas a verdade é que precisa provar a si mesma e aos outros, especialmente aos homens que a cercam, que é capaz de administrar terras, tomar decisões comerciais e liderar trabalhadores, desafiando directamente a noção predominante de que as mulheres são inaptas para tais responsabilidades. 


"Oak lembrou-se, de súbito, que oito meses antes estivera a dar combate ao incêndio, nesse mesmo lugar em que, desesperadamente, lutava agora contra a chuva - e tudo pelo amor fútil da mesma mulher." 


Paralelamente a esta gestão prática, Bathsheba enfrenta a intricada teia dos seus relacionamentos. A sua busca por amor e parceria é marcada pela indecisão e pelas pressões sociais, forçando-a a navegar entre a atracção por homens de diferentes classes e temperamentos, cada um representando um caminho distinto para o seu futuro. Deste modo, numa tapeçaria onde as forças do destino e as decisões do livre arbítrio se entrelaçam de forma inseparável, é moldado o percurso da nossa protagonista. As suas decisões, por vezes impulsivas, outras pragmáticas, como a escolha de gerir a sua herança por conta própria ou a forma como lida com os avanços dos seus pretendentes, demonstram a complexidade dum espírito livre lutando contra as correntes do que parece predestinado. 


Podes ler ainda a minha opinião sobre Cranford


A prosa de Thomas Hardy é um dos traços mais distintivos e cativantes deste livro. Com maestria ímpar, ele tece descrições vívidas e sensoriais do campo inglês, transformando a paisagem num personagem tão palpável quanto os humanos que a habitam. Esta qualidade descritiva, rica em detalhes da natureza e das rotinas rurais, confere ao romance uma atmosfera quase poética, onde cada estação, cada raio de sol e cada sopro de vento parecem carregar um significado mais profundo. No entanto, sob esta beleza bucólica, pulsa uma melancolia intrínseca, uma consciência da transitoriedade da vida e da força muitas vezes implacável do destino, que impregna a narrativa com um tom agridoce. Esta sensibilidade melancólica não diminui, contudo, a sua capacidade de retratar a realidade de forma crua, expondo as complexidades das relações humanas, as pressões sociais e as lutas pela sobrevivência com uma franqueza que chega a ser desconcertante. 


"É difícil para uma mulher definir os seus sentimentos numa linguagem principalmente feita pelos homens para exprimirem os seus." 


Assim, Longe da Multidão torna-se numa imersão profunda e visceral na alma humana, entrelaçada com a implacável natureza. A força motriz da obra reside na sua protagonista, uma figura que desafia as convenções com uma resiliência e vivacidade que a tornam inesquecível. Portanto, esta leitura foi uma experiência transformadora, que me levou a refletir sobre a complexidade do amor, a fragilidade da felicidade e a força indomável do espírito humano quando confrontado com as mais diversas adversidades. Foi a minha estreia com este autor e só agora percebo os motivos para a fama de Thomas Hardy, o que só me leva a querer continuar a descobrir a sua obra nos próximos tempos. 


Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já leste Longe da Multidão? O que achaste de Bathsheba Everdene e da sua jornada por um amor que desafia as convenções? Qual a tua opinião sobre as escolhas da nossa protagonista? Conta-me tudo nos comentários! 


Encomenda o teu exemplar através dos links abaixo, sem custos adicionais para ti, e contribui para as próximas leituras deste blog 


Wook | Bertrand 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

#Documentário - A Mulher da Casa Abandonada

 

Poster da série documental brasileira "A Mulher da Casa Abandonada".

Sinopse

A Mulher da Casa Abandonada é uma série documental que dá continuidade às investigações do podcast homónimo que se tornou um fenómeno no Brasil. Na série, Chico Felitti fala sobre como descobriu a história de "Mari" e começou as suas pesquisas, mostrando os bastidores e toda a repercussão que o podcast teve, e se aprofundando ainda mais na trama real e macabra. Ao lado da directora Kátia Lund, o repórter vai atrás dos personagens e fontes que podem ajudar a chegar à verdade pelo Brasil e nos Estados Unidos. O podcast e a série investigam a história de uma mulher excêntrica que vivia numa mansão abandonada em São Paulo, mas ela escondia muito além do nome falso. "Mari" foi acusada de cometer um crime hediondo e fugir do julgamento nos Estados Unidos. 


Buy Me a Coffee

Opinião 

A série documental brasileira A Mulher da Casa Abandonada lança-nos num dos mistérios mais intrigantes e comentados das redes sociais nos últimos tempos. A premissa central que move a narrativa é a história envolvente duma mulher que, segundo boatos que ecoam pela vizinhança e rapidamente se espalharam pela internet, vive reclusa numa mansão luxuosa e decadente. Esta residência imponente, com a sua arquitectura grandiosa e aparente abandono, torna-se o palco principal duma lenda urbana que desperta curiosidade e especulação. Quem é esta mulher e por que ela escolheria viver em isolamento num lugar tão grandioso, mas esquecido pelo tempo? Destaco a habilidade das realizadoras para equilibrar a investigação jornalística com a sensibilidade artística, o que faz desta série um documento fascinante e necessário sobre a natureza humana e as histórias que habitam os recantos esquecidos das nossas cidades e das nossas mentes. 


A produção mergulha na intrigante história de Margarida Bonetti, uma figura enigmática que vive reclusa num casarão histórico e decadente no coração de São Paulo. A série, que complementa o podcast do jornalista Chico Felitti, começa quando o público descobre a existência de Margarida. A trama desenrola-se ao desvendar os mistérios que cercam a sua vida, sobretudo o caminho que trilhou até chegar a este isolamento voluntário. A própria casa, com a sua imponência decadente e histórias sussurradas pelos vizinhos, já instiga um temor, mas é a sua habitante reclusa que personifica a aura sombria e inquietante. Inicialmente, somos apresentados a fragmentos da sua existência, como a presença esquiva, os ruídos noturnos ou a lenda duma vida outrora próspera agora mergulhada no esquecimento. 


Podes ler também a minha opinião sobre The cult behind the killer


Esta ausência de informação concreta alimenta a imaginação, pintando um quadro de solidão extrema e, para alguns, de perigo latente. No entanto, à medida que a série avança e os contornos da sua história obscura começam a revelar-se, o medo inicial gradualmente cede espaço a um crescente desprezo. A narrativa desenrola-se como um labirinto intrincado, que nos leva a um passado desta mulher nos Estados Unidos que, junto com o marido, foi acusada de manter em trabalho análogo à escravidão a empregada doméstica brasileira que levaram consigo. As primeiras pistas, coletadas com cautela e curiosidade, dão lugar a reviravoltas surpreendentes, que desvendam camadas de segredos e descontroem as primeiras impressões. A cada nova descoberta, seja um objecto peculiar, um depoimento inesperado, uma informação contraditória, a trama adensa-se substituindo certezas por um turbilhão de novas perguntas. 


Fotografia promocional da série documental brasileira "A Mulher da Casa Abandonada", apresentando Hilda, uma das personagens centrais, e a casa em São Paulo que dá nome à produção. A imagem evoca o clima de mistério e investigação da série

Ao longo dos episódios, acompanhamos a investigação a chegar aos Estados Unidos até encontrar a vítima brasileira que sofreu nas mãos de Margarida e que testemunhou o que viveu na primeira pessoa. Alguns vizinhos dessa época também são encontrados e permitem perceber o terror vivido por esta mulher, que agora vive numa instituição. Outro testemunho importante que foi conseguido na série foi o da própria Margarida, que, com relutância e muita desconfiança, concorda em contar um pouco da sua versão e da sua própria história, enquanto mulher de classe alta que vivia num mundo de opulência, tanto com os pais como com o marido. São estes factores surpreendentes que fazem com que a série seja excelente até para quem já conhece a história desta mulher através do podcast que foi um sucesso tremendo. 


Podes ler ainda a minha opinião sobre The Inventor


O grande destaque desta produção é a sua abordagem investigativa minuciosa e a narrativa envolvente, que nos prende desde os primeiros minutos. A série constrói um suspense palpável ao desvendar a história de Margarida e explorar a experiência terrível de Hilda num país desconhecido, com uma língua que não dominava, presa sem documentos num bairro onde parecia invisível. No fundo, além dos factos, explora também as camadas psicológicas e sociais que cercam este mistério. A qualidade da pesquisa, com acesso a documentos, entrevistas e depoimentos, confere credibilidade e profundidade ao documentário. Além disso, a edição habilidosa e a banda sonora contribuem para a atmosfera densa e intrigante, que evoca uma sensação de mistério e, por vezes, de desconforto. 



A Mulher da Casa Abandonada é, sem dúvida, uma obra que provoca, intriga e, acima de tudo, convida à reflexão. Se por um lado, a série mergulha num universo de mistérios e reviravoltas que prendem o espectador do início ao fim, por outro, confronta-nos com a complexidade das narrativas, a fragilidade da verdade e os limites éticos da exploração de pessoas vulneráveis. Os três episódios podem ser assistidos na Prime Video, por isso corre para lá, depois de teres ouvido os episódios do Podcast. Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já viste esta série? O que achaste desta história intrigante e perturbadora? Qual o momento que mais te marcou? Conta-me tudo nos comentários abaixo! 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

#Livros - O Cânone Ocidental, de Harold Bloom

 

Capa do livro "O Cânone Ocidental" de Harold Bloom, publicado pela editora Temas e Debates. A capa apresenta o título em destaque, o nome do autor e o selo da editora.

Sinopse

«Neste ponto tardio da história, que deve ler o indivíduo que pretende ler?»

O Cânone Ocidental é muito mais do que uma lista de obras que devemos ler - podemos descrevê-lo como uma visão. Combinando erudição com paixão, o autor defende uma cultura escrita unificadora, opõe-se com firmeza à politização da literatura e propõe-nos um guia para os grandes livros e os escritores essenciais de todos os tempos. 

Uma obra indispensável para redescobrir as alegrias e riquezas que a leitura dos «melhores dos melhores autores» nos pode proporcionar. 


Buy Me a Coffee

Opinião 

Em Cânone Ocidental, Harold Bloom, famoso crítico literário e professor da Universidade de Yale, presenteia-nos com uma obra monumental que não se limita a uma mera lista de obras literárias, mas sim a uma defesa apaixonada e provocativa daquilo que ele considera o cerne da tradição literária ocidental. Publicado originalmente em 1994, o livro nasce da convicção de Bloom de que a leitura atenta e aprofundada dos grandes autores é um caminho essencial para o autoconhecimento e para o desenvolvimento da individualidade, um desafio à própria alma. Com a sua prosa erudita e envolvente, Bloom navega por séculos de literatura, desde a Antiguidade Clássica até ao século XX, apresentando e defendendo os autores que, na sua visão, moldaram o pensamento e a sensibilidade ocidental, ao mesmo tempo que convida o leitor a um diálogo crítico com essa herança. 


Longe de ser um mero catálogo de obras, o cânone, tal como defendido por Bloom, representa um conjunto de textos que moldaram a imaginação, a ética e a própria consciência do Ocidente, influenciando profundamente a maneira como nos vemos, nos relacionamos e interpretamos o mundo. Ao mergulhar neste livro, somos convidados a confrontar as fundações do nosso legado cultural, a entender os critérios que definiram o que é considerado "grande" e a refletir sobre o papel duradouro destas obras na formação da identidade individual e coletiva. Afinal, o autor foi um dos mais influentes e prolíficos críticos literários do século XX e início do XXI. Bloom, além de estudioso, foi um provocador, cujas ideias sobre a originalidade, a influência e a "ansiedade da influência" moldaram profundamente o campo da crítica literária e continuam a inspirar e desafiar leitores e académicos em todo o mundo. 


Podes ler também a minha opinião sobre Hamlet


A obra de Harold Bloom desdobra-se numa estrutura ambiciosa e multifacetada, que reflete a própria magnitude do legado literário que se propõe a examinar. O livro organiza-se em torno dum argumento central, desdobrado em capítulos dedicados a figuras literárias seminais, que formam a espinha dorsal do cânone ocidental. Bloom tece uma complexa teia de influências, antagonismos e diálogos intertextuais, evidenciando como a criatividade literária é um processo contínuo de confronto e superação. A estrutura, portanto, é mais um percurso sinuoso do que uma linha recta, guiada pela visão particular do autor sobre as grandes leituras e os autores que, na sua opinião, moldaram de forma indelével a consciência ocidental. O capítulo dedicado a Shakespeare é, sem dúvida, um dos pilares da obra. Bloom não só celebra a genialidade do bardo, mas insere-a num contexto de influência e originalidade, argumentando sobre como Shakespeare moldou a própria concepção de individualidade e do "eu" na literatura ocidental. 


"A originalidade é o grande escândalo com que o ressentimento não pode pactuar, e Shakespeare mantém-se o escritor mais original que alguma vez havemos de conhecer." 


Outro ponto crucial reside nos capítulos que exploram a tradição romântica, onde a ênfase recai sobre a revolução estética. Aqui, figuras como Wordsworth, Austen e Tolstói são dissecadas, revelando a força da imaginação e a rebelião contra as convenções. Não se pode ignorar a importância dos capítulos que abordam os modernistas como Joyce, Woolf e Kafka. Bloom, com a sua visão crítica, demonstra como estes autores, embora herdeiros duma rica tradição, ousaram reconfigurar a linguagem e a estrutura narrativa, refletindo as angústias e as transformações do século XX. No fundo, Bloom privilegia a força e a originalidade da voz literária, a capacidade dum autor em desafiar os seus predecessores e inovar radicalmente a linguagem e a forma, criando obras de grandeza e originalidade que ecoam através dos séculos, como fontes vivas de conflito e beleza. 


Podes ler ainda a minha opinião sobre A Divina Comédia


Assim, para Harold Bloom, a verdadeira grandeza dum texto reside na sua capacidade de resistir ao teste do tempo, de demonstrar uma força que transcende as modas e os contextos históricos. Esta força manifesta-se na originalidade intrínseca da obra, na sua capacidade de inovar e de dialogar com as tradições literárias anteriores de maneira a redefini-las. A justificativa central por trás da sua curadoria é a busca pela excelência estética e pela profundidade psicológica, elementos que, segundo ele, permitem que estas obras continuem a tocar em leitores de diferentes gerações e culturas. Bloom argumenta que o cânone não é um corpo estático de textos a serem reverenciados passivamente, mas sim um campo de batalha onde o mérito e a influência são constantemente disputados, e onde a descoberta e a releitura são essenciais para a vitalidade da literatura. 


"Freud, seguindo astuciosamente Shakespeare, deu-nos o nosso mapa da mente, mas Kafka fez-nos saber que não devíamos acalentar qualquer esperança de utilizar esse mapa para nos salvarmos, nem mesmo de nós próprios." 


Importa destacar o quanto a profundidade e a erudição do autor são palpáveis em cada página. Bloom demonstra um conhecimento enciclopédico da literatura ocidental, traçando conexões intrincadas entre autores, obras e períodos históricos com uma maestria impressionante. Além disso, a linguagem e a paixão contagiante de Bloom transformam o que poderia ser um estudo árido numa experiência literária envolvente. Ele escreve com um fervor que convida o leitor a redescobrir a beleza e a força das obras que moldaram o pensamento e a sensibilidade ocidental. Esta foi uma leitura que expandiu o meu repertório de autores e obras a serem explorados num futuro próximo e ainda me dotou duma lente crítica mais afiada, um pouco mais capaz de discernir a verdadeira força e o impacto duradouro duma obra literária na vasta e vibrante paisagem da cultura ocidental. 


Em suma, este livro é um convite provocador à reflexão sobre o que constitui a excelência literária e a sua perene relevância. E tem ainda o aliciante de incluir um autor português, Fernando Pessoa, nesta lista canónica, integrado na Idade Caótica, e que é um deleite ver pelos olhos deste crítico tão conceituado. Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já conhecias este livro e o seu autor? Quais as obras que consideras que precisam ser consideradas como canónicas? Concordas com a seleção de Bloom? Conta-me tudo nos comentários! 


Encomenda o teu exemplar através dos links abaixo, sem custos adicionais para ti, e contribui para as próximas leituras deste blog 


Wook | Bertrand

terça-feira, 25 de agosto de 2026

#Livros - Hamnet, de Maggie O'Farrell

 

Capa do livro "Hamnet", de Maggie O'Farrell, publicada pela editora Relógio d'Água. A imagem apresenta uma ilustração artística com tons quentes e detalhes que remetem ao período elisabetano, evocando a atmosfera histórica e emocional do romance.

Sinopse

Hamnet é um romance sobre o filho de Shakespeare. Mas esse é apenas o ponto de partida para Maggie O'Farrell construir uma obra actual, que interroga a origem da dor e envereda por caminhos menos conhecidos do amor e da maternidade. 

Numa narrativa que mistura realidade e ficção, a autora irlandesa cria uma das mais importantes obras literárias deste início do século XXI. 


Buy Me a Coffee

Opinião

Hamnet, escrito por Maggie O'Farrell e publicado em 2020, é um romance histórico que mistura elementos de ficção e drama e onde tudo acontece na Inglaterra do século XVI, durante o período elisabetano, uma era marcada por profundas transformações sociais, culturais e religiosas. A história passa-se na cidade de Stratford, onde William Shakespeare nasceu, cresceu e casou. Este período é caracterizado por uma Inglaterra ainda afectada pelos efeitos da Reforma Protestante, que trouxe mudanças na estrutura religiosa e na sociedade. Além disso, a época também foi marcada por altos índices de mortalidade infantil e doenças como a peste bubónica, aspectos que permeiam a narrativa e ajudam a contextualizar o sofrimento e as perdas enfrentadas pelos personagens. 


A narrativa mergulha nas emoções humanas mais profundas enquanto revela as complexidades do vínculo familiar em momentos de adversidade. Com uma escrita delicada e envolvente, Maggie O'Farrell consegue criar uma história tocante que celebra a força do amor e a fragilidade da vida, que nos leva a refletir sobre o significado da família e da perda. É uma ode ao impacto duradouro da morte duma criança na vida dos seus entes queridos. É explorada a profundidade dos laços familiares, especialmente entre pai, mãe e filhos, destacando como o amor e a dor se entrelaçam diante duma tragédia inesperada. Por fim, o romance reflete sobre a fragilidade da vida e a forma como a morte pode transformar e definir as relações humanas, com uma sensibilidade especial sobre o luto, a esperança e a resiliência. 


Podes ler também a minha opinião sobre Hamlet


No livro, os personagens principais são Hamnet, o filho mais novo, a sua mãe, Agnes, e o seu pai, William. O menino é representado como uma criança sensível e cheia de vida, cuja doença e morte precoce têm um impacto profundo na vida de toda a família. Agnes, uma mulher forte e intuitiva, é especialmente próxima a Hamnet e desempenha um papel fundamental na história, ao oferecer uma visão íntima da vida familiar e das dificuldades enfrentadas por quem fica e se torna o esteio da família. Shakespeare, embora uma figura central, aparece mais como um personagem distante, cuja ausência e os desafios do seu novo ofício influenciam fortemente o ambiente familiar, mas também a sua prosperidade. Não podemos esquecer as outras duas filhas do casal que completam este núcleo e que são também vítimas da fatalidade, ainda que cada uma reaja à sua maneira diante da tragédia da perda. 


"Não sabia porquê, mas qualquer coisa nele sempre atraíra a ira e a frustração do pai para a sua pessoa, como uma ferradura para um íman." 


A estrutura do enredo de Hamnet é construída de forma intricada, ao entrelaçar momentos da infância e da maturidade, do passado e do presente. A narrativa é organizada em capítulos que alternam entre diferentes pontos no tempo, permitindo ao leitor acompanhar a evolução dos personagens e os eventos que moldaram as suas vidas. A autora utiliza uma abordagem não linear, fundindo detalhes do quotidiano com momentos de memória, o que confere ao romance uma atmosfera introspectiva. Importa destacar também a utilização duma linguagem poética e sensível, que intensifica a carga emocional do enredo, tornando a leitura uma experiência imersiva e tocante. A verdade é que a prosa delicada e evocativa facilita uma conexão emocional intensa com os personagens, especialmente com a mãe, Agnes, e o seu filho Hamnet. 


Podes ler ainda a minha opinião sobre Wolf Hall 


A Agnes de Maggie O'Farrell é uma mulher forte, quase selvagem, resiliente e profundamente dedicada à sua família. Desde o início, é apresentada como uma personagem sensível e intuitiva, possuidora duma conexão especial com o mundo natural que a distingue dos demais. A sua relação com o marido, deliciosa de acompanhar desde o início, revela uma parceria marcada por amor, compreensão e apoio mútuo, mesmo diante das dificuldades da vida. No que diz respeito a William Shakespeare, destaca-se a presença enigmática e complexa. A autora sugere um retrato que captura a essência do dramaturgo, um homem introspectivo, marcado por uma profunda sensibilidade e uma mistura de força e vulnerabilidade. A sua imagem transforma-se à medida que a sua personalidade se constrói e depois dos momentos difíceis que viveu, tornando-se uma figura de certa austeridade, com olhos que parecem conter tanto a sabedoria quanto a melancolia. 


"A morte é violenta, a morte é uma luta. O corpo agarra-se à vida como a hera a uma parede, e não a largará facilmente, não soltará as garras sem dar luta." 


Um dos temas centrais é o vínculo materno como força poderosa que resiste à tragédia, ao mesmo tempo em que evidencia a dor universal da perda, tornando-se uma reflexão tocante sobre o impacto duradouro do luto. Com a sua abordagem sensível e comovente, percebemos como a morte e o luto afectam os indivíduos e as suas relações. O livro divide-se em duas partes, a primeira que precede a tragédia e que nos conta sobre o passado do casal, e a segunda depois da perda do filho e da luta hercúlea para se manterem unidos, sem se perderem definitivamente uns dos outros. No fundo, a autora retrata o luto como um processo complexo e pessoal, evidenciando as diferentes formas de lidar com a dor e a ausência. É incrível a forma como a autora consegue transmitir de forma poderosa a tristeza silenciosa da mãe que enfrenta a perda do filho, tornando o livro, ao mesmo tempo, íntimo e universal. 


O hype em torno deste livro talvez tenha comprometido a minha experiência, porque não senti o arrebatamento que todos falavam, ainda que entenda que é um excelente livro, muito bem escrito e com uma história poderosa. Foi uma excelente compra da Feira do Livro, com a intenção de ver o filme que foi lançado, e que deverá ser a minha próxima experiência, sobre o qual estou muito curiosa. Afinal, esta é uma leitura enriquecedora, que combina lirismo e reflexão, deixando uma forte impressão sobre a fragilidade da vida e o poder do amor familiar. Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já leste o livro ou não fui a última neste planeta? Como esta leitura te impactou? Qual a tua personagem favorita? Conta-me tudo nos comentários! 


Encomenda o teu exemplar através dos links abaixo, sem custos adicionais para ti, e contribui para as próximas leituras deste blog 


Wook | Bertrand 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

#Filmes - O Pátio da Saudade

 

Poster do filme português 'O Pátio da Saudade' com Sara Matos em destaque

Sinopse

Ao descobrir que herdou um antigo teatro, outrora palco de grandes sucessos da revista à portuguesa, Vanessa, uma actriz cansada da rotina televisiva, pondera vendê-lo e seguir com a sua vida. Contudo, ao visitar o espaço, vê despertar em si um inesperado desejo de o recuperar. Com o apoio de dois grandes amigos, resolve montar um novo espectáculo para devolver a vida ao velho teatro. 

Com realização de Leonel Vieira, segundo um argumento escrito por si, por Aldo Lima, Manuel Prates e Alexandre N. Rodrigues, esta comédia conta com uma série de caras conhecidas, entre elas Sara Matos, José Raposo, Alexandra Lencastre, José Pedro Vasconcelos, José Pedro Gomes, Ana Guiomar, Gilmário Vemba, Carlos Cunha, Carlos Areia e Manuel Marques. 


Buy Me a Coffee

Opinião 

O Pátio da Saudade é um filme português, lançado em 2025, é uma comédia que nos remete para outros tempos que parecem distantes e perdidos com a modernidade e o estilo de vida apressado das grandes metrópoles. É uma homenagem aos teatros esquecidos de Lisboa, às revistas que foram remetidas para a gaveta e para um tipo de artista que vivia para a sua profissão e pagava o preço disso todos os dias. O saudosismo existe e parece estar vivo ou não tivesse sido este o filme português mais visto nos cinemas no ano passado. 


Vanessa é uma actriz famosa, mais pelo corpo que pelo talento, e encontra-se numa fase da vida em que gostaria de mudar isso e abraçar projectos verdadeiramente desafiantes. É neste momento que é informada da morte duma tia que lhe teria deixado algo em herança e que poderá mudar a sua vida financeira consideravelmente. Afinal, um imóvel em Lisboa, nos dias que correm, é uma verdadeira fortuna. Sem entender porque se teria lembrado esta tia da sobrinha, vai conhecer a sua herança e descobre que agora será dona dum teatro. Em ruínas, mas um teatro. O seu agente está determinado na venda, mas Vanessa sente-se tentada a abraçar este espaço e redirecionar a sua carreira a partir daqui. 


Podes ler também a minha opinião sobre Bem Bom


Tudo se passa numa Lisboa contemporânea, onde os becos e as vielas dos bairros históricos funcionam como personagem viva da narrativa. O filme transita entre espaços urbanos decadentes e interiores intimistas, refletindo entre a modernidade acelerada e a permanência melancólica de lugares esquecidos pela cidade. A acção desenrola-se numa Lisboa que preserva cicatrizes do passado, onde a personagem de Sara Matos se move como quem procura resgatar memórias enterradas e com elas construir o seu futuro. O teatro, enquanto cenário simbólico, transforma-se num refúgio onde Vanessa confronta os seus demónios internos, reafirmando a premissa universal de que a verdadeira transformação exige uma viagem honesta pelo labirinto das emoções e memórias que nos definem. 


Sara Matos no papel de Vanessa em cena do filme português 'O Pátio da Saudade' (2025)

Sara Matos constrói uma personagem complexa e multifacetada, encarnando uma mulher contemporânea confrontada com as tensões próprias duma jovem actriz que gostaria de ver o seu talento reconhecido, mas que vê apenas a sua aparência ser tida em consideração. Com o seu dilema que a divide entre a resignação de aceitar o que lhe é oferecido e a urgência de se reinventar, torna-se o coração emocional do filme e o motor que dá nova vida a um género que parecia moribundo e revitaliza a importância de preservar um teatro, ao invés de o demolir e permitir que mais um projecto hoteleiro impessoal nasça no coração da cidade. Sara Matos entrega uma performance notável, o que só consolida a sua posição como uma das actrizes mais versáteis da sua geração. 


Podes ler ainda a minha opinião sobre Amadeo


Claro que não nos podemos esquecer do excelente trabalho de Ana Guiomar e Manuel Marques, que interpretam os melhores amigos de Vanessa e que a acompanham nesta aventura que culmina na tentativa desesperada para salvar um teatro em ruínas através de crowdfunding e da encenação do roteiro duma revista à portuguesa deixado pela sua falecida tia. Mas, pessoalmente, fiquei rendida aos actores mais velhos, como José Raposo, Alexandra Lencastre e Carlos Areias, que nos entregam uma verdadeira homenagem às velhas figuras teatrais, que tinham pela revista um verdadeiro amor e lhe dedicaram as suas vidas. Além disso, conta com um realizador conceituado como Leonel Vieira, que nos entrega uma fotografia lindíssima da cidade e faz o roteiro brilhar com os seus planos e escolhas artísticas. 


O filme apresenta-se como uma produção leve, bem disposta, mas com uma mensagem poderosa e que nos toca nas lembranças mais remotas, quase como uma homenagem a uma Lisboa e a um teatro perdidos no tempo, mas que ainda podem ser resgatados como património que são. Ainda assim, gostaria que o final tivesse sido mais explorado, sem a precipitação para um desfecho que poderia ter sido entregue de forma mais interessante e que permitisse compreender melhor o sucesso da empreitada. Pela minha parte, foi tempo bem passado e parece-me a companhia perfeita para uma tarde em família, para descontrair e lembrar outros tempos. No entanto, acho que deves descobrir por ti e fica a saber que poderás ver O Pátio da Saudade na Amazon Prime Video. Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já conhecias este filme? Qual foi a tua impressão sobre a interpretação de Sara Matos? Que aspectos da narrativa mais te interessaram? Conta-me tudo nos comentários abaixo! 

Subscreve a Newsletter