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terça-feira, 30 de setembro de 2025

#Livros - Santa Evita, de Tomás Eloy Martinez

 

Ilustração de uma mulher vestida de branco com uma auréola na cabeça, sobre um fundo azul escuro, na capa do livro "Santa Evita" publicado pela Tinta da China.

Sinopse

A grande personagem deste romance não tem vida: é o corpo morto de Eva Perón. Mas Santa Evita, um dos maiores clássicos da literatura em língua espanhola, é também sobre Eva Perón viva, sobre o país que a adorou ou odiou e sobre as imensas contradições da alma humana. «A magia dos bons romnaces suborna os seus leitores, fá-los comer gato por lebre e corrompe-os ao seu capricho. Confesso que esta o conseguiu comigo, que sou perito velho no que se refere a não sucumbir facilmente às armadilhas da ficção. Santa Evita venceu-me desde a primeira página e acreditei, emocionei-me, sofri, tive prazer e, no decurso da leitura, contraí terríveis vícios e atraiçoei os meus mais caros princípios liberais. 

Eu, que detesto com toda a minha alma os ditadores e os homens fortes e, ainda mais do que eles, os seus séquitos e as bovinas multidões que encandeiam, dei subitamente por mim desejando que Evita ressuscitasse e regressasse à Casa Rosada a fazer a revolução peronista. Quando uma ficção é capaz de induzir um mortal de firmes princípios e austeros costumes a estes excessos, não há a menor dúvida: deve ser proibida ou lida sem perda de tempo.» Do Prefácio de Mario Vargas Llosa 


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Opinião 

Santa Evita é uma obra que mergulha na fascinante e enigmática história de Eva Perón, uma das figuras mais emblemáticas da política argentina. Com uma narrativa envolvente e de grande profundidade, o livro explora os mitos, a memória e as complexidades da personagem que marcou uma era. Tomás Eloy Martinez, famoso jornalista e escritor argentino, é conhecido pela sua habilidade para combinar rigor jornalístico com uma prosa fluente, tendo produzido obras que exploram aspectos históricos e sociais da América Latina. A sua escrita combina pesquisa minuciosa e sensibilidade, tornando esta leitura emocionante e provocando reflexões sobre a figura e a mulher que foi Eva Perón e sobre o seu legado, que perdura até hoje. 


Eva Perón, conhecida como Evita, nasceu em 1919, na região de Los Toldos, ela ascendeu de origem humilde para se tornar a primeira-dama da Argentina ao casar-se com o que seria presidente, Juan Domingo Perón, em 1945. A sua influência estendeu-se para além do âmbito familiar, consolidando-se como símbolo do peronismo, um movimento político que procurava promover a justiça social, os direitos trabalhistas e a inclusão dos pobres na política do país. Evita utilizou a sua popularidade para defender os direitos das classes mais desfavorecidas, ao mesmo tempo que enfrentava forte oposição de setores conservadores e das elites tradicionais. A sua morte em 1952, vítima de cancro, marcou o início da lenda que ainda reverbera na História argentina, sendo vista tanto como uma líder popular quanto uma figura emblemática de resistência e transformação social. 


Podes ler também a minha opinião sobre Quincas Borba 


Narrativa ficcional, retrata os eventos após a morte de Eva Perón, com especial destaque para o controverso destino do seu corpo, que foi exumado, desaparecido e manipulado ao longo dos anos, tornando-se símbolo de poder e mistério. Ao mesmo tempo, ao longo dos capítulos, explora também a origem humilde da jovem Evita, a sua carreira como actriz, a sua ascensão ao poder e a relação com o marido. Para cada resposta encontrada sobre o seu passado, parecem surgir uma mão cheia de perguntas novas, aparentemente impossíveis de esclarecer. A alternância entre passado e presente, acompanhando em paralelo a trajetória da Evita viva e da Evita morta, contribui para construir uma narrativa rica, complexa e multifacetada, que nos prende com curiosidade e fascínio às suas páginas, enquanto aprofunda a compreensão do fenómeno Evita na cultura argentina. 


"Perón deixou-me ser tudo aquilo que quis. Eu teimava e dizia, quero isto, Juan, quero aquilo, e ele nunca me negou nada. Pude ocupar todo o espaço que me apeteceu. Não ocupei mais porque não tive tempo. Adoeci de tanto me esforçar." 


Ficamos a perceber como a imagem de Evita transcende a sua pessoa, tornando-se um motivo de fervor popular e símbolo político que influencia as estruturas sociais e políticas do país. O autor explora de forma magistral a construção da imagem pública e o processo de mitificação em torno de Eva Perón. O romance revela como a figura de Evita foi cuidadosamente moldada pelos meios de comunicação, pelo poder político e pela própria narrativa oficial, transformando-a numa heroína quase mítica que transcende a sua existência real. A obra destaca os motivos centrais de idealização, sacrifício e manipulação, onde evidencia como esses elementos contribuíram para a criação da lenda que perdura na memória coletiva argentina. Tanto a mulher quanto o seu cadáver incorporaram o mito que alimenta as massas e esta leitura conduz-nos numa viagem perturbadora, empolgante, misteriosa e viciante, porque, quando termina, estava capaz de ler ainda mais e mais e mais sobre esta figura. 


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O estilo de Martinez é marcado por uma narrativa empolgante e detalhada, que combina elementos do jornalismo e da ficção para criar uma leitura vibrante. A sua escrita é pontuada por uma linguagem rebuscada e elegante, capaz de transmitir emoções intensas, enquanto constrói uma atmosfera de mistério sobre temas políticos, identitários e até históricos. Com uma prosa que mistura realismo e fantasia, criou uma obra que é ao mesmo tempo uma biografia imaginada e uma reflexão sobre a memória coletiva. Evita, entre a santidade e o absurdo, entre metáforas que parecem ecos duma Argentina em crise e um humor irónico que revela as contradições dum país obsessivamente devoto da sua própria lenda, surge como um espelho distorcido das nossas próprias fantasias e desilusões. Transportando-nos para os intricados bastidores da Argentina do século XX, é recriada a trajetória de Eva Perón, cujo corpo, após a sua morte, se torna numa peça de poder e fascínio. 


"Agora é um corpo demasiado grande, maior do que o país. Está excessivamente cheio de coisas. Todos nós lhe fomos metendo qualquer coisa dentro: a merda, o ódio, a vontade de matá-la de novo. E como diz o Coronel, há gente que também lá meteu o seu pranto. Esse corpo é como uma metralhadora carregada." 


Cada capítulo revela uma combinação de factos reais, rumores e imaginação, criando uma atmosfera que nos prende da primeira à última página, repleta de mistério e paixão. A profundidade dos personagens também é algo a destacar e que muito enriquece a trama e que permite que ela se torne credível, mesmo nos momentos mais inusitados. A própria Evita é retratada com uma complexidade que vai muito além do mito, revelando as suas emoções, ambições e vulnerabilidades. Os homens que a cercam, tanto em vida quanto na morte, também são descritos com nuances que revelam as suas motivações e conflitos internos. Pessoalmente, a minha obsessão com este livro começou quando vi a série Santa Evita, e só descansei quando ele chegou à minha estante. Levei-o comigo nas primeiras férias que fiz, e logo ali, numa esplanada em Elvas, percebi que estava perante uma obra extraordinária e que tenho a certeza que constará nos favoritos de 2025. É um mergulho no absurdo, que se torna real, com uma linguagem elaborada, que contrasta com a morbidade do que retrata e que nos transporta para uma Argentina que talvez ainda exista no seu povo. 


Só posso dizer que fiquei rendida ao livro e ao autor e deixou-me muito curiosidade para ler mais de Tomás Eloy Martinez. Agora, quero muito saber a tua opinião! Já conhecias Santa Evita? Que momento ou personagem mais despertou o teu interesse? O que sentiste com este enredo fantástico? Conta-me tudo nos comentários! 


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Wook | Bertrand 

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

#Places - La Cantina

 

Imagem de um prato de massa à bolonhesa, com molho suculento e bem apresentado, acompanhado de um copo de vinho branco ao fundo, criando uma atmosfera acolhedora e apetitosa no restaurante "La Cantina", no Montijo.

La Cantina é um novo restaurante localizado no coração do Montijo, que se destaca pela sua atmosfera descontraída e pelo compromisso em oferecer uma experiência gastronómica especial. Com uma decoração moderna, o estabelecimento convida os visitantes a desfrutar de pratos preparados com ingredientes frescos e de qualidade. Seja para um almoço descontraído ou um jantar especial, La Cantina procura criar um ambiente acolhedor onde os clientes se sintam em casa, valorizando sempre o sabor e a autenticidade da sua cozinha variada. 


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A minha chegada ao espaço foi bastante acolhedora, até porque já conhecia, por motivos profissionais, o dono do restaurante que se apressou a receber-nos com atenção e cuidado. A rápida atenção aos detalhes fez-me sentir bem-vinda e ansiosa para experimentar tudo o que me aguardava. O ambiente é acolhedor e convidativo, onde encontramos refletida uma atmosfera que combina elementos contemporâneos com outros que respeitam a história antiga do edifício onde se insere. A iluminação suave contribui para uma atmosfera relaxante, perfeita para desfrutar duma refeição em boa companhia. 


Podes ler também sobre a minha experiência no Marradas 


Este é um restaurante que fica bem perto do meu novo local de trabalho e, por isso, já o visitei diversas vezes desde a sua abertura. Portanto, desde então, já tive oportunidade de experimentar uma variedade de pratos que encantaram o meu paladar e deixaram sempre o desejo de voltar. Como prato principal, destaco as massas, como a de Cogumelos e Carbonara, que são acompanhadas de molho rico e queijo gratinado e que nos aconchegam até a alma. Também não posso ignorar as Pizzas, cada uma melhor do que a outra, com ingredientes de qualidade elevada, massa fina e estaladiça e que podem perfeitamente ser divididas por duas pessoas. Por fim, recomendo também que experimentes os Bitoques de Porco Preto e de Vaca, suculentos e com um sabor inconfundível, acompanhados por ovo e batatas fritas. 


Fotos da minha experiência no restaurante La Cantina, no Montijo: à esquerda, uma deliciosa massa com cogumelos, com molho cremoso e cogumelos frescos; à direita, uma saborosa massa à carbonara, com ovos, queijo, pancetta e pimenta, apresentada em um prato apetitoso

A qualidade e o sabor da comida no La Cantina são verdadeiramente excepcionais. Os ingredientes utilizados são frescos e cuidadosamente selecionados, o que reflete bem o seu compromisso com a excelência em cada prato. Os sabores harmoniosos e autênticos, conquistaram o meu paladar definitivamente, tornando cada refeição uma experiência memorável. Além disso, a apresentação dos pratos demonstra atenção aos detalhes, elevando ainda mais o padrão de qualidade deste espaço e destacando-se pelo equilíbrio de cores, aromas e texturas. Quanto às sobremesas, fiquei fã absoluta da Mousse de Maracujá, embora também tenha apreciado os Churros, acompanhados de Doce de Leite. Para acompanhar todas estas iguarias, tenho experimentado algumas das sangrias incríveis que fazem, como a de Morando ou a de Maracujá, que recomendo vivamente que experimentes. 


Podes ler ainda sobre a minha experiência no Maré Cheia 


Apesar das várias visitas, ainda quero voltar para experimentar o Choco Frito, os Tacos e os Hamburgueres num futuro próximo, que parecem ter muito bom aspecto quando os vejo passar para as mesas à minha volta, tal como o Petit Gateau de Caramelo, no que diz respeito às sobremesas. A rapidez no serviço costuma ser positiva, embora o intervalo entre o final da refeição e o pedido dos cafés deixe um tanto a desejar, sobretudo para quem tem de ir trabalhar a seguir. No entanto, tenho de reconhecer que tem existido uma melhoria neste ponto desde a inauguração até agora. Em suma, a minha experiência com toda a equipa do La Cantina foi sempre muito agradável e pautada por atenção e simpatia, bem como profissionalismo e cordialidade em todos os momentos. 


Fotos do prato de bitoque de vaca, com carne grelhada, ovo estrelado, batatas fritas e salada, ao lado de uma mousse de maracujá cremosa e decorada com polpa de maracujá.

A faixa de preços no La Cantina é bastante acessível, oferecendo opções variadas mas sempre económicas. Os pratos principais normalmente custam entre 6 a 15 euros, enquanto as entradas e sobremesas têm preços que variam entre 3 a 6 euros. Assim, a percepção de valor em relação à qualidade do restaurante é bastante positiva, e maior fica quando percebemos que é possível almoçar por apenas 10€, sem grande dificuldade. Encontramos aqui, no centro da cidade, uma excelente opção para quem procura uma refeição saborosa, de qualidade e muito acessível. Portanto, se procuras uma experiência gastronómica de qualidade e amiga da carteira, se aprecias a cozinha italiana e a portuguesa, vais aqui encontrar o lugar certo para ti, seja para um almoço descontraído, um jantar romântico ou uma reunião de amigos. Pela minha parte, é certo e sabido que voltarei nos próximos tempos, seja com amigos ou colegas de trabalho. 


Mas agora quero saber a tua opinião! Já conhecias o La Cantina? O que pensas do seu menu variado? Tens algum prato favorito? Conta-me tudo nos comentários abaixo! 

terça-feira, 23 de setembro de 2025

#Livros - Eneida, de Vergílio

 

Fundo bege suave com uma pequena ilustração de um guerreiro romano em tons neutros, transmitindo um clima clássico e elegante que remete à antiguidade e à narrativa épica da obra.

Sinopse

A Eneida, poema épico que descreve os destinos de Eneias e dos troianos que com ele escaparam à queda de Troia, é considerada a obra-prima de Vergílio e um exemplo maior da literatura latina. 

Esta epopeia narra a longa viagem marítima que a frota de Eneias empreende em busca de uma nova pátria prometida pelos deuses e tantas vezes profetizada. É a história da demanda por um lugar no mundo e da luta pelo direito a habitar a terra das suas vicissitudes e glórias. Dela nasce Roma e um Império que moldará o mundo. 

Esta nova edição atualiza a tradução do latim realizada por uma equipa de docentes da Faculdade de Letras de Lisboa e devolve ao texto a sua estrutura de poema, com versos numerados para mais fácil leitura e estudo. 


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Opinião 

A Eneida é uma obra-prima da literatura clássica, escrita pelo poeta romano Vergílio, no século I a.C. Considerada uma das maiores epopeias da antiguidade, a obra narra a jornada do herói Eneias, que procura estabelecer a cidade de Roma após a destruição de Troia. Vergílio, poeta de grande destaque na Roma antiga, é reconhecido pela sua maestria para combinar elementos mitológicos, históricos e filosóficos nas suas obras. A sua escrita reflete uma profunda admiração pela cultura grega, ao mesmo tempo em que procura consolidar a identidade romana, influenciando gerações posteriores e deixando um legado duradouro na literatura ocidental, que perdura até hoje. 


A obra foi composta entre 29 a.C. e 19 a.C., num período marcado pelo fim da República Romana e o início do Império Romano sob o comando de Augusto. O livro surge num momento de consolidação do poder imperial e de forte enaltecimento dos valores tradicionais romanos, como o dever, a virtude e a origem divina de Roma. Literariamente, a Eneida insere-se na tradição épica clássica, inspirando-se na Ilíada e na Odisseia de Homero, mas também reflete a necessidade de legitimar a ascensão de Roma, apresentando a fundação mítica de Roma e os seus heróis como uma continuação das grande epopeias gregas. Assim, o poema funciona tanto como uma narrativa de aventuras quanto como uma celebração do destino e do papel histórico de Roma. 


Podes ler também a minha opinião sobre a Ilíada 


A motivação e o propósito de Vergílio para escrever esta obra estão profundamente ligados à sua intenção de criar uma obra nacional que exaltasse a origem do povo romano, procurando estabelecer uma poesia que pudesse rivalizar com os grandes poemas épicos gregos, elevando a história lendária de Eneias como símbolo da missão e do destino de Roma. Claro que o livro está impregnado de influências da poesia homérica e da mitologia romana, evidenciando-se na estrutura narrativa e na construção dos personagens. É fácil encontrar elementos épicos, como é o caso da jornada do herói do protagonista, a presença de deuses a intervir nos acontecimentos humanos e o uso de invocações divinas para orientar a trama. Além disso, a mitologia permeia toda a obra, enriquecendo o texto com referências às lendas e figuras emblemáticas do imaginário romano, como os deuses, heróis e fundadores de Roma, que só são totalmente perceptíveis para leigos pelas valiosas notas que acompanham cada página desta tradução portuguesa. 


"Todos concordaram e permitiram de bom grado que

se orientasse para a morte de um só infeliz aquilo que 

cada um receava que a si coubesse."


Na Eneida, os personagens centrais desempenham papéis essenciais na condução da narrativa e na representação de temas como destino, dever e paixão. Eneias é o herói troiano, líder determinado, que enfrenta desafios e obstáculos na sua jornada. Dido, rainha de Cartago, representa o amor e o conflito emocional, e a sua paixão por Eneias é intensa, mas tragicamente interrompida pelo destino. Turno surge como o antagonista de Eneias, guerreiro que desafia o herói e procura impedir a sua chegada às terras prometidas e o cumprimento das profecias grandiosas. Juno actua na história influenciando eventos e tentando proteger os seus interesses, enquanto Júpiter, rei dos deuses, mantém o equilíbrio cósmico e assegura que o destino de Eneias seja cumprido, guiando a narrativa com a sua autoridade divina. 


Podes ler ainda a minha opinião sobre a Odisseia 


O livro acompanha os eventos da jornada de Eneias após a queda de Troia. Tudo começa com este grupo de troianos a fugir de Troia enquanto procuram uma nova terra onde possam estabelecer-se. Durante a viagem, enfrentam conflitos com povos inimigos e obstáculos naturais, como tempestades e monstros marinhos. Um dos momentos decisivos é a visita de Eneias ao reino dos mortos, onde encontra figuras importantes do passado e busca orientação para o seu destino e do seu povo. Além disso, temos também o conflito interno de Eneias entre o seu dever de liderar o seu povo e as suas emoções pessoais, especialmente em relação a Dido, com quem ele mantém um relacionamento apaixonado que acaba interrompido pelo seu destino de fundar uma nova cidade. Deste modo, a narrativa evidencia como o destino é uma força inexorável que direciona as acções do herói, mesmo diante de obstáculos e sofrimentos pessoais. 


"Qual a causa que dera origem a tamanho incêndio, ignoram. 

Mas as dores acerbas causadas pela profanação de um grande amor

e aquilo de que é sabido ser capaz uma mulher enfurecida

conduzem os corações dos Teucros a tristes conjeturas." 


A linguagem é de uma riqueza poética que combina grandiosidade e elegância, refletindo a solenidade do estilo épico. O poeta utiliza uma linguagem elevada, carregada de figuras de estilo, como metáforas e hipérboles, que engrandecem os acontecimentos e os personagens, conferindo ao poema um tom monumental. Vergílio utiliza uma estrutura linear, marcada por viagens, batalhas e encontros com figuras míticas, entrelaçados com momentos de reflexão e orações que elevam o texto ao nível poético. A poesia permeia toda a obra, conferindo-lhe ritmo, musicalidade e profundidade emocional, ainda que muito se perca inevitavelmente na tradução. Algo que chama a atenção é a riqueza de detalhes na descrição dos ambientes e dos personagens, criando uma narrativa envolvente e imersiva. 


Depois de ter adquirido o livro este ano, na Feira do Livro de Lisboa, continuei na senda de explorar as grandes obras épicas que permitem compreender a mitologia e as influências do que se lhe seguiu de forma mais clara e reveladora. É assim que me vi envolvida nos mitos romanos e tradições que servem para reforçar o culto por Roma e pelo seu Império poderoso. Não é uma leitura fácil nem intuitiva, mas também não é tão difícil que seja impossível acompanhá-la, sobretudo se escolheres uma boa edição com notas que te permitem entender as referências. Só te posso assegurar que vale bem a pena a leitura e vais sair dela muito mais rica e conhecedora das influências que povoam os livros que lês hoje. Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já leste a Eneida? Gostas destes épicos da literatura clássica? Qual o teu favorito? Conta-me tudo nos comentários! 


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Wook | Bertrand 

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Projecto Cinema - 1992 | O Silêncio dos Inocentes

 

Fita de filme clássica sobre um fundo branco, simbolizando a história do cinema e os vencedores do Oscar ao longo dos anos.

Estamos de volta à exploração da História e da evolução do Cinema através dos filmes vencedores do Óscar ao longo dos anos. Relembro que este projecto tem como objectivo oferecer uma visão aprofundada sobre as obras que marcaram épocas e influenciaram o cenário cinematográfico mundial. Hoje, vamos destacar o vencedor de 1992 na categoria de Melhor Filme: O Silêncio dos Inocentes, uma obra-prima que conquistou o público e a crítica e que permanece como um marco na História do Cinema. 


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A 64.ª edição da cerimónia destacou-se por reconhecer um filme que se tornou num ícone da cultura pop e uma marco incontornável na História do Cinema. Esta premiação foi particularmente significativa por marcar a primeira vez que um filme de suspense psicológico conquistou o prémio de Melhor Filme, refletindo uma mudança na preferência da Academia por obras que exploram temas complexos e profundos. A vitória de O Silêncio dos Inocentes também reforçou a importância de roteiros inteligentes e actuações marcantes, consolidando-se como uma obra de grande impacto cultural e crítico. Este Óscar destacou a capacidade do Cinema de abordar temas sombrios com inteligência e sensibilidade, influenciando gerações futuras de cineastas e espectadores. 


Acompanha todo o desenrolar do Projecto Cinema - Óscar de Melhor Filme 


O Silêncio dos Inocentes, realizado por Jonathan Demme e lançado em 1991, é um thriller psicológico, baseado no romance de Thomas Harris, que acompanha a jovem agente do FBI, Clarice Starling, enquanto procura a ajuda do brilhante, porém perigoso, canibal Doutor Hannibal Lecter, para capturar um serial killer conhecido como Buffalo Bill. O impacto do filme foi profundo e duradouro na época do seu lançamento e perdura até aos dias de hoje. A obra revolucionou o género de suspense ao combinar uma narrativa psicológica intensa com actuações memoráveis de Anthony Hopkins e Jodie Foster. A sua abordagem inovadora ao explorar os limites da mente humana e o uso de elementos de horror psicológico cativaram o público e elevaram o padrão dos thrillers na indústria cinematográfica. 


Poster do filme "O Silêncio dos Inocentes" mostrando o rosto de Jodie Foster com uma borboleta cobrindo sua boca, simbolizando o silêncio e o mistério do filme.

No filme somos apresentados a dois personagens centrais cujas complexidades e dinâmicas intensificam a narrativa. Clarice procura provar o seu valor enquanto enfrenta os seus próprios traumas pessoais e o desafio de ajudar a capturar um serial killer perigoso. Do outro lado, Hannibal Lecter, um brilhante psiquiatra preso pelos seus crimes enquanto canibal, é uma presença enigmática e perturbadora, cuja inteligência afiada e manipulação habilidosa desempenham um papel crucial na investigação. A relação tensa e ambígua entre Clarice e Hannibal é fundamental para o desenvolvimento da trama, explorando a inteligência, a manipulação e as lutas internas de cada personagem. 


Também os aspectos técnicos e estilísticos desempenha um papel fundamental na criação da atmosfera intensa e perturbadora que permeia todo o filme. A direcção destaca-se pelo uso de enquadramentos próximos e planos detalhados, que intensificam a conexão emocional com os personagens. A banda sonora, composta por Howard Shore, reforça o clima de suspense e tensão constante, enquanto que a edição ágil e precisa contribui para manter o ritmo frenética e a iluminação contrastante e o uso de cores sombrias ampliam a sensação de inquietação. Na cerimónia de 1992, conquistou um total de cinco estatuetas, consolidando-se como um dos grandes clássicos do Cinema. Assim, levou para casa, além do prémio para Melhor Filme, o Óscar de Melhor Argumento Adaptado, Melhor Realizador, Melhor Actor e Melhor Actriz. 



A verdade é que O Silêncio dos Inocentes é uma obra-prima que combina uma narrativa intensa com actuações marcantes, e que se tornou num marco na História do Cinema, muito graças à sua atmosfera tensa e ao retrato psicológico profundo, com destaque para a psicopatia, algo pouco abordado na época, quando o True Crime não era ainda um género generalizado e popular. Talvez por tudo isto, permanece actual e relevante, passados tantos anos desde a sua estreia. Se ainda não viste este filme, não sei onde andaste escondida, recomendo fortemente que o adiciones à tua lista de filmes a assistir com urgência e fiques por dentro deste pedaço da cultura cinematográfica que tem inspirado tantos outros e que se infiltrou na cultura pop desde então, com inúmeras referências noutras obras. 


Portanto, este é o momento para veres, ou reveres, esta obra de arte e deliciar-te com algo que roça a perfeição e te vai proporcionar momentos de entretenimento dos bons. Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já viste O Silêncio dos Inocentes? O que achaste deste enredo sombrio? Qual o momento que mais te marcou? Tens alguma cena favorita? Conta-me tudo nos comentários abaixo! 

terça-feira, 16 de setembro de 2025

#Livros - Gente Ansiosa, de Fredrik Backman

 

Imagem da capa do livro "Gente Ansiosa" de Fredrick Backman, publicado pela Porto Editora. O fundo é laranja vibrante, com uma ilustração de um casal de costas, lado a lado, sem se tocar, transmitindo uma sensação de distância e introspecção.

Sinopse

Visitar um apartamento que está à venda não costuma redundar numa situação de perigo. A menos que seja antevéspera de Ano Novo, e um ladrão inexperiente tenha decidido assaltar um banco onde não há dinheiro. Quando assim é, torna-se inevitável que não haja sequer um plano de fuga, e se acabe com uma data de reféns acidentais. 

Felizmente, podemos confiar na pronta intervenção das autoridades. A menos que os dois polícias responsáveis pelo caso não se entendam nem saibam o que fazer. 

Ainda assim, acreditamos que tudo correrá bem, em particular se os reféns permanecerem calmos. A menos que sejam os reféns mais idiotas de todos os tempos: uma analista bancária com ideias suicidas, uma adorável velhinha com motivações pouco transparentes, um casal reformado com uma paixão enorme pelo IKEA, duas recém-casadas, prestes a serem mães, que andam sempre às turras, uma agente imobiliária com entusiasmo a mais e talento a menos, e uma pessoa vestida de coelho. 

Com um sentido de humor excecional, que cativou milhões de leitores em todo o mundo, e personagens tão imperfeitas quanto tocantes, Fredrik Backman volta a surpreender com esta história sobre gente idiota e ansiosa e os laços invisíveis que (n)os unem. 


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Opinião 

Gente Ansiosa é o livro de Fredrick Backman de 2025, dado que entrou naquela lista de autores que procuro ler uma obra por ano, por serem extraordinários e para degustar melhor o que escreveram e não ficar logo órfã dos seus livros. Backman é o mais famoso escritor sueco contemporâneo, conhecido por explorar as emoções humanas, relacionamentos e a complexidade da vida quotidiana. Nos últimos anos, conquistou reconhecimento internacional com os seus livros que combinam humor, sensibilidade e uma profunda compreensão da condição humana, tudo temas que transcendem o tempo e as fronteiras geográficas, e que, por isso, tocam pessoas de todo o mundo. 


Neste livro, o autor explora os dilemas da vida moderna e os desafios enfrentados por indivíduos que lidam com ansiedade e inseguranças de diferentes origens. Através de histórias entrelaçadas e personagens profundamente humanos, nem sempre bons, nem sempre maus, Backman retrata diferentes trajetórias, histórias de vida até opostas, mas que têm em comum o desejo de ultrapassar os problemas e ser felizes. Em mais uma história sensível e cheia de suspense, convida-nos a refletir sobre a importância da empatia e do autoconhecimento na jornada de todos e cada um de nós. Os personagens principais são uma variedade de pessoas que representam diferentes aspectos da ansiedade e da solidão na sociedade moderna, obrigados a ficar juntos por muitas horas quando são feitos reféns por um ladrão pouco capaz, uma vez que tentou roubar um banco, daqueles modernos, que não têm dinheiro nas suas instalações. 


Podes ler também a minha opinião sobre A minha avó pede desculpa 


O livro aborda de maneira sensível e perspicaz o tema da ansiedade e da saúde mental, destacando como esses aspectos influenciam profundamente a vida das pessoas. Fica claro como é importante compreender, acolher e dialogar sobre estes temas, promovendo uma mensagem de empatia e aceitação. Numa narrativa que desmistifica preconceitos e incentiva uma atitude mais compassiva tanto consigo mesmo quanto com os outros, reforça que procurar ajuda e compreender os próprios limites são passos essenciais para uma vida mais equilibrada e onde a amizade pode fazer a diferença. Afinal, é nas relações interpessoais que podemos encontrar conforto e compreensão, mostrando que um gesto atencioso ou apenas ouvir com interesse pode transformar vidas e mudar destinos, que poderiam ser trágicos. É o que acontece quando o grupo de reféns se une para ajudar o ladrão de bancos falhado e entendemos que, no fundo, todos precisavam de ajuda e foi nesse contexto que a encontraram. 


"Mas também teve vontade de lhe dizer que o sistema económico ao qual dedicou a vida é o maior problema do mundo neste momento, porque o construímos demasiado forte. Esquecemo-nos de como somos ambiciosos, mas, acima de tudo, esquecemo-nos de como somos fracos. E agora está a esmagar-nos." 


Ao longo da leitura, mergulhamos nas nuances da vida quotidiana, onde as pequenas acções e as preocupações diárias revelam as complexidades do ser humano. Ficamos a entender que a ansiedade é uma experiência universal que pode afectar qualquer pessoa, independentemente da idade ou condição social, e como ela perturba as nossas relações, escolhas e percepções do mundo. Com as suas personagens cativantes e tão diferentes entre si, Backman evidencia que, por trás das aparências de normalidade, cada indivíduo enfrenta batalhas internas silenciosas. A cada novo capítulo conseguimos sentir as emoções e os conflitos dos personagens, chegando a ter o desejo de estender a mão e ajudar aquelas pessoas a sair dos lugares escuros onde estão, por trás das suas máscaras sociais e das mentiras que contam aos estranhos que com eles se cruzam. 


Podes ler ainda a minha opinião sobre Um Homem Chamado Ove 


No coração da narrativa temos um efeito de espelho e de abraço, com os seus personagens, com as suas ansiedades e pequenas neuroses, que parecem tão familiares quanto aqueles amigos que todos temos. O autor recorda-nos que a vida é feita de momentos imperfeitos, de dúvidas que parecem gigantes, e de encontros que, apesar de tudo, carregam uma esperança subtil e que podem até mudar tudo. Apesar dos temas serem sérios e até pesados, o autor consegue arrancar-nos sorrisos e gargalhadas, com o seu bom humor e o seu estilo próximo. Sem dramatizar o que já é dramático por si só, parece conseguir gerar mais empatia por aquelas pessoas cheias de problemas e que escondem segredos do passado ou o medo do futuro. A escrita de Backman está repleta de empatia e humanidade, o que cria uma atmosfera acolhedora e ao mesmo tempo impactante. Mesmo que demore a chegar a empatia por todos os personagens, ela chega e depois é impossível não se emocionar com a forma como tudo foi conduzido, como se uniram e decidiram resolver os problemas de cada um juntos e, desse modo, resolvem todos os problemas. 


"Depois, pensou numa escritora norte-americana que escrevera que a solidão é como a fome: só nos apercebemos do quão esfomeados estávamos quando começamos a comer." 


Este livro é absolutamente relevante, pela forma como aborda o medo do fracasso, a procura por aceitação ou o impacto do isolamento social. Se no final da leitura, estiveres mais consciente para quem te rodeia e para ti mesmo, talvez estejas um passo mais perto de viver numa sociedade mais inclusiva, acolhedora e empática. Com revelações surpreendentes ao longo da história, além de entreter, entrega assuntos interessantes, ensinamentos úteis nas entrelinhas e deixa uma impressão duradoura, que fica mesmo depois de termos terminado a leitura. Pessoalmente, ainda que não tenha destronado o meu livro favorito do autor, gostei muito de ler Gente Ansiosa e recomendo vivamente que descubras esta obra com tantas camadas que, tenho a certeza, irá tocar-te de diferentes formas e por muitos motivos. 


Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já leste Gente Ansiosa? O que achaste desta narrativa surpreendente? Acompanhas o trabalho de Fredrik Backman? Qual o teu livro favorito do autor? Conta-me tudo nos comentários! 


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