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quinta-feira, 11 de junho de 2026

#Filmes - Amadeo

 

Cena do filme Amadeo: Amadeo de Souza-Cardoso, vestido formalmente, ao lado de sua esposa numa festa, refletindo a vida social e artística do pintor português no início do século XX

Sinopse

Amadeo de Souza-Cardoso nasceu a 14 de Novembro de 1887, na aldeia de Manhufe, Amarante. Proveniente de uma família burguesa, em jovem fez os seus estudos no Liceu Nacional de Amarante e mais tarde em Coimbra. Em 1905, entrou no curso preparatório de desenho na Academia Real de Belas-Artes, em Lisboa. No ano seguinte, seguiu para Paris, onde se relacionou com algumas das mais importantes personalidades da cultura da época, entre eles Amedeo Modigliani, Constantin Brâncusi, Alexander Archipenko, Gertrude Stein, Max Jacob, Otto Freundlich, o casal Robert e Sonia Delaunay ou o crítico de arte norte-americano Walter Pach. Entre os amigos portugueses de quem se tornou amigo em França contam-se os pintores Eduardo Viana, Francisco Smith ou Emmerico Nunes. Foi também lá que, em 1908, se apaixonou por Lucie Meynardi Pacetto (1890-1989), com quem viria a casar-se em 1914, e que acompanharia o seu trabalho até ao fim, tornando-se guardiã da sua obra. Amadeo morreu com apenas 30 anos, vítima da epidemia da gripe pneumónica, mais conhecida como gripe espanhola


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Opinião 

Amadeo é um filme português de 2023 que nos traz a vida do pintor modernista Amadeo de Souza-Cardoso, uma figura central da arte portuguesa do século XX. Dirigido com sensibilidade histórica, o filme propõe-se resgatar a memória dum artista cuja obra foi marcada pelo experimentalismo e pela busca constante de inovação plástica. Inserido numa época de transformações radicais nas artes visuais, o filme documenta a vida dum pintor que transitou entre Portugal e Paris, absorvendo influências cubistas, futuristas e modernistas que incorporou na sua pintura singular. Esta narrativa cinematográfica reafirma a relevância de Souza-Cardoso na História da Arte portuguesa, consolidando a sua posição como pioneiro da modernidade artística nacional. 


O filme acompanha o artista no seu regresso a Portugal, depois duma temporada em Paris e de se ter casado com Lucie, motivado pelo eclodir da Primeira Guerra Mundial. Com uma narrativa que transita entre períodos distintos da sua vida, a obra explora os desafios pessoais e profissionais enfrentados por Amadeo, a sua relação com a família, os círculos artísticos que frequentou e a sua busca constante pela inovação estética. O filme oferece uma visão intimista sobre a criatividade, as influências que moldaram o seu trabalho e o legado duradouro que deixou, tudo isto enquadrado no contexto turbulento da Europa no início do século XX. Amadeo emerge como figura central, retratado na sua complexidade como artista ambicioso e visionário, dividido entre a liberdade criativa e as expectativas familiares. 


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Ao seu lado, encontram-se as mulheres que marcaram a sua vida, a esposa, companheira nos períodos de maior turbulência, e a mãe e as irmãs, mulheres simples da burguesia do Norte do país. Os personagens secundários também incluem figuras como o seu pai, que representa a autoridade tradicional e o conservadorismo português, ainda que tenha permitido e financiado para que o único filho seguisse a sua vocação. A família e os amigos vanguardistas, em conjunto, desenham o retrato dum homem preso entre dois mundos, o Portugal provinciano e a Europa cosmopolita, conflito que define tanto a sua obra quanto a sua breve vida. Quando Portugal permanecia periférico aos grandes movimentos de vanguarda que transformavam a arte em Paris, Berlim ou Moscovo, Amadeo consegue romper com as convenções e dialogar com as correntes mais inovadoras da sua época. 


Rafael Morais interpreta Amadeo de Souza-Cardoso ao lado do quadro 'Os Galgos' no filme de 2023

Com a sua narrativa construída através duma estrutura que intercala diferentes períodos da vida do pintor, cria um diálogo constante entre passado e presente. Esta abordagem não-linear permite ao espectador compreender como as vivências do artista moldaram a sua obra e a sua personalidade, enquanto a iminência da morte confere urgência e profundidade emocional às recordações. A estrutura reforça assim a ideia de que a vida de Amadeo foi uma constante busca por identidade e liberdade criativa, espelhando a própria natureza fragmentada e experimental da sua pintura modernista. Os diferentes tempos narrativos funcionam como camadas de tinta numa tela, sobrepondo-se e iluminando-se mutuamente para revelar o retrato completo dum homem e dum artista. 


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A narrativa centra-se na evolução psicológica e artística do pintor, acompanhando a sua transformação desde um jovem artista ambicioso até um criador maduro, marcado pelas vicissitudes do seu tempo e da sua arte. O protagonista revela as tensões internas entre a dedicação obsessiva à criação artística e ao reconhecimento profissional. O ritmo acompanha a própria cadência turbulenta da vida do pintor, alternando entre momentos de frenética criatividade e períodos de introspecção melancólica, muito embora, estes últimos confiram uma lentidão ao filme que, por vezes, incomoda um pouco e que considero que poderiam ser menores, ainda que comprometesse a dramaticidade de certos momentos. Por seu lado, os cenários transportam-nos desde os ambientes intimistas do Portugal rural até aos espaços cosmopolitas de Paris no início do século XX. As salas de exposição, os ateliers e os ambientes domésticos são cuidadosamente trabalhados para evocar a atmosfera do período modernista, enquanto a fotografia e a iluminação complementam esta linguagem visual, criando uma harmonia estética que dialoga com as próprias obras de Amadeo. 



Além de tudo isto, o filme vem resgatar a importância histórica de Souza-Cardoso no panorama da arte moderna europeia, corrigindo um esquecimento injusto. Também importa referir a performance do actor principal, Rafael Morais, que conseguiu capturar a intensidade criativa e a vulnerabilidade dum homem dividido entre a ambição artística e as limitações impostas pelo contexto histórico. Por fim, a recriação do cenário europeu do início do século XX, com particular atenção aos círculos parisienses e às vanguardas, oferece um pano de fundo culturalmente rico que enriquece a compreensão da obra e da época em que Amadeo viveu. Em suma, Amadeo é uma obra cinematográfica que se destaca pela abordagem sensível e visualmente refinada da vida dum dos pioneiros da modernidade portuguesa. 


O filme consegue equilibrar a intimidade pessoal do artista com a sua relevância histórica, oferecendo uma experiência que transcende a mera biografia convencional. A realização de Vicente Alves do Ó revela-se particularmente feliz na recriação da atmosfera das vanguardas europeias, enquanto que todo o elenco está fantástico, com especial destaque para os saudosos Rogério Samora e Eunice Muñoz. Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já viste Amadeo? Conhecias este pintor português? Consideras que o filme conseguiu capturar a essência da obra artística de Souza-Cardoso? Conta-me tudo nos comentários abaixo! 

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