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terça-feira, 5 de agosto de 2025

#Livros - Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

 

Capa do livro "Admirável Mundo Novo" publicado pela Antígona, com fundo vermelho vibrante. No centro, há um círculo azul contendo um comprimido branco, simbolizando temas de controle, tecnologia e manipulação presentes na obra.

Sinopse

Admirável Mundo Novo é uma parábola fantástica sobre a desumanização dos seres humanos. Na utopia negativa descrita no livro, o Homem foi subjugado pelas suas invenções. A ciência, a tecnologia e a organização social deixaram de estar ao serviço do Homem; tornaram-se os seus amos. Desde a publicação deste livro, o mundo rumou a passos tão largos na direcção errada que, se eu escrevesse hoje a mesma obra, a acção não distaria seiscentos anos do presente, mas somente duzentos. O preço da liberdade, e até da simples humanidade, é a vigilância eterna. 


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Opinião 

Esta é uma obra clássica da literatura de ficção científica, publicada em 1932 e faz parte das distopias mais famosas escritas no século XX. O livro apresenta uma sociedade futurista altamente controlada, onde a tecnologia e a engenharia social garantem a estabilidade e a felicidade, mas à custa da liberdade individual e da autenticidade humana. Aldous Huxley, famoso escritor britânico, é conhecido pelas suas reflexões críticas sobre o progresso, a ciência e a sociedade, tendo produzido uma vasta obra que combina romances, ensaios e contos. Aqui, com uma crítica contundente às tendências do seu tempo, o autor constrói um universo que questiona os limites da ciência e do progresso. 


Na sociedade futurista de Admirável Mundo Novo, a tecnologia e o controlo social garantem uma estabilidade aparente, eliminando conflitos e sofrimento. Neste mundo, os indivíduos são condicionados desde a infância a aceitar as suas funções e a desfrutar duma vida de prazeres superficiais, enquanto a liberdade e a individualidade são sacrificadas em nome da ordem coletiva. Assim, a reprodução é artificial e o consumo desenfreado é incentivado como forma de manter a ordem. Entre os principais elementos do enredo, destacam-se a presença de castas rígidas e a eliminação das emoções profundas por meio de drogas como o "Soma". Com esta narrativa, o autor apresenta uma crítica à perda de individualidade e à submissão voluntária às estruturas de poder, que mantém a ordem social através da manipulação das emoções, desejos e pensamentos das pessoas. 


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Em Admirável Mundo Novo, é explorada a busca desenfreada pela felicidade superficial como uma das principais temáticas da obra. No fundo, essa procura por uma felicidade rasa evidencia os perigos duma vida pautada apenas pelo conforto momentâneo, alertando para os custos duma sociedade que sacrifica valores profundos em prol duma estabilidade aparente, sustentada em cima da produção em massa, da engenharia genética e da manipulação psicológica. Huxley provoca o leitor a refletir sobre os limites da ciência, levantando dilemas éticos sobre o uso da tecnologia para moldar a sociedade e o papel do Estado na manutenção da ordem. A verdade é que, mesmo passados tantos anos da sua publicação, esta continua a ser uma reflexão filosófica sobre o que realmente dá sentido à vida humana. 


"Enfim, o dever é o dever. Não se pode consultar as preferências pessoais. Interesso-me pela verdade, amo a ciência. Mas a verdade é uma ameaça, a ciência é um perigo público. Ela é actualmente tão perigosa como já foi benfazeja." 


Os protagonistas, Bernard e John, o Selvagem, desempenham papéis centrais na narrativa, representando diferentes perspectivas sobre a sociedade futurista. Bernard é um alfa-mais que foge do convencional com as suas questões, demonstrando uma insatisfação com as normas rígidas do mundo tecnocrático, e esta sua postura coloca-o à margem da sociedade de controlo, ganhando uma certa má fama entre os seus pares. Dividido entre o desejo de pertencer ao sistema e a percepção de que algo está errado nesse mundo artificial, é marcado por uma sensação de inadequação e alienação, onde as suas inseguranças ganham poder. Já o Selvagem, nasce numa reserva, filho duma mulher que se perdeu durante uma viagem a esse lugar remoto e se descobriu grávida contra todas as probabilidades e que, ao serem encontrados por Bernard, são trazidos de volta à civilização. Esta personagem peculiar traz para a história uma visão mais tradicional e emocional, confrontando os valores do mundo civilizado quando tenta experimentar a cultura e os costumes da sociedade futurista. 


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Aldous Huxley apresenta um estilo de escrita caracterizado por uma linguagem clara e precisa, que combina um tom filosófico e reflexivo com uma narrativa que mistura elementos de ficção científica e crítica social. A sua prosa é sofisticada, repleta de termos técnicos e conceitos complexos, e entrega uma narrativa diferenciada, muitas vezes com um tom irónico. A linguagem empregada em Admirável Mundo Novo desempenha um papel fundamental na imersão do leitor na sociedade distópica que é retratada. O estilo reforça a ideia duma sociedade controlada, onde a linguagem reflete a uniformidade e a superficialidade das relações humanas. Termos técnicos, gírias específicas e uma comunicação muitas vezes padronizada ilustram a ausência de profundidade emocional e a manipulação ideológica levada ao extremo, o que nos leva a perceber melhor a alienação e o condicionamento psicológico deste mundo novo. 


"Deus não é compatível com as máquinas, nem com medicina científica ou felicidade universal. É preciso escolher. A nossa civilização escolheu as máquinas, a medicina e a felicidade." 


Esta é uma obra que se destaca pela originalidade e profundidade, alertando para os perigos do totalitarismo, da perda da individualidade e dos limites éticos do avanço científico. Por tudo isto, é uma obra que deixou uma marca profunda na literatura e no pensamento social. Antecipou debates contemporâneos sobre o controlo estatal, o consumo massificado e a perda da autonomia humana. Ao longo do tempo, contribuiu ao criar uma reflexão profunda sobre as possíveis consequências duma sociedade excessivamente controlada e tecnologicamente dependente, inspirando autores, pensadores e movimentos sociais a reconsiderar as direcções do progresso. O que significa que, além de ampliar os horizontes da ficção científica, Huxley também estimulou uma reflexão crítica sobre o futuro da sociedade e o impacto das inovações tecnológicas no nosso modo de viver e pensar. 


A inteligência do autor ao explorar estes temas torna o livro uma leitura obrigatória para quem se interessa por questões sociais, éticas e filosóficas relacionadas ao progresso científico e às suas consequências. Afinal, não deixa de surpreender como uma obra destas permanece actual, quase um século passado da sua publicação. No nosso mundo, onde as inovações científicas e tecnológicas avançam tão rapidamente que nem as conseguimos registar, é impossível não fazer o paralelo com este universo distópico e pensar nas consequências que poderemos ter, conforme as decisões que forem tomadas hoje. Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já leste esta distopia clássica? Encontraste semelhanças entre o universo do livro e o nosso mundo actual? Que momento do livro mais te impactou? Aprecias este género literário? Conta-me tudo nos comentários! 


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Wook | Bertrand 

quinta-feira, 31 de julho de 2025

#Places - José Maria da Fonseca

 

Taça de vinho tinto em primeiro plano, com vinhas verdes ao fundo em Azeitão, refletindo a tradição e a beleza da Adega José Maria da Fonseca.

A minha primeira visita à Casa Museu José Maria da Fonseca, situada em Azeitão, foi durante o meu curso de Turismo e gostei tanto que, de lá para cá, não me canso de recomendar esta visita a todos os meus amigos. Foi precisamente o que me fez voltar, para uma nova visita, para apresentar este lugar a um amigo e, assim, dar-lhe a conhecer a história e os valores que sustentam esta marca famosa e que produz alguns dos nossos vinhos favoritos. Este é um importante património enológico desta região e visitar permite compreender a paixão, dedicação e inovação que permeiam a produção dos seus vinhos. 


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A marca foi fundada em 1834 e é uma das mais antigas e emblemáticas vinícolas de Portugal, tendo desempenhado um papel fundamental na história e no desenvolvimento da região de Azeitão. A Casa Museu, construída no século XIX e restaurada em 1923, foi a residência da família Soares Franco até aos anos 70. Com uma fachada característica e jardins lindíssimos, tem estado desde sempre associada à imagem da José Maria da Fonseca. A visita começa com o edifício principal, com uma breve explicação sobre a história da empresa e da família fundadora, seguindo-se a visita às antigas adegas, a Adega da Mata e a Adega dos Teares Novos, onde repousam alguns dos mais antigos Moscatéis de Setúbal. Pelo meio, temos oportunidade de passear pelos jardins e terminamos na Loja de Vinhos, onde podemos provar alguns dos mais icónicos vinhos da marca e, claro, comprar o que mais nos agradar. 


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Ao longo dos anos, a José Maria da Fonseca tem recebido diversos reconhecimentos e prémios que refletem a sua excelência e dedicação à produção de vinhos de alta qualidade, e que podemos ver durante a visita. À chegada fomos recebidos com cordialidade pela equipa que nos proporcionou uma recepção calorosa e profissional. Durante a visita pelas instalações, tivemos então a oportunidade de explorar as impressionantes caves onde os vinhos envelhecem em condições ideias e muito específicas, preservando e potenciando as suas características únicas. A empresa é particularmente famosa pelo seu emblemático vinho Periquita, um tinto consolidado no mercado português e internacional, bem como pelos seus vinhos de sobremesa, especialmente o Moscatel de Setúbal, que nos encanta pelo seu aroma intenso e doçura equilibrada, com especial destaque para a variedade Roxo, o melhor de todos. 


Colagem de fotos das diferentes adegas da Adega José Maria da Fonseca em Azeitão, mostrando os interiores das caves, barris de vinho, áreas de armazenamento e detalhes do processo de produção vinícola.

Como já referi, tivemos a oportunidade de, no final da visita, participar numa degustação guiada que evidenciou a riqueza e a diversidade dos vinhos produzidos por esta casa. Foram provados diferentes vinhos, incluindo o célebre Periquita e, claro, o Moscatel Roxo. A experiência permitiu apreciar as nuances aromáticas e gustativas de cada vinho, destacando a atenção aos detalhes na produção e no cuidado na seleção das uvas, sempre com as explicações enriquecedoras da nossa guia. Cada gole proporcionou uma experiência sensorial distinta, evidenciando o compromisso da José Maria da Fonseca em oferecer vinhos de excelência que exprimem a autenticidade da região de Azeitão. 


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Pessoalmente, fiquei impressionada com a combinação entre tradição e inovação presente no local. A atmosfera acolhedora e o cuidado artesanal evidenciam o compromisso com a qualidade e a preservação das técnicas tradicionais de produção. A visita proporcionou uma experiência enriquecedora, permitindo-me apreciar não só os sabores únicos dos seus vinhos, mas também a paixão e a dedicação de toda a equipa envolvida. Esta é uma oportunidade única de aprofundar o conhecimento cultural e gastronómico da região, além de permitir uma melhor compreensão das tradições, histórias e técnicas que moldaram a identidade vinícola local ao longo dos séculos. Esta experiência enriquece-nos e valoriza o património enológico, essencial para apreciar plenamente a riqueza e diversidade da cultura portuguesa. 


Imagem de uma montagem com fotos dos barris de madeira na adega, destacando detalhes do envelhecimento do vinho, acompanhada de uma placa informativa sobre o vinho Torna Viagem, exibindo sua etiqueta, informações de produção e características principais.

Só posso recomendar a visita à Casa Museu José Maria da Fonseca para quem deseja conhecer melhor esta região e a sua rica tradição vinícola, além de ser uma experiência imperdível para os amantes de vinho que andem a passear pela zona de Setúbal e arredores. Podes visitar este espaço todos os dias, com horários compreendidos entre as 10h e as 17h30, embora no Inverno o horário seja mais restrito, e é aconselhável que faças a tua marcação prévia. Também pode ser visitado nos feriados, com visitas guiadas em português, inglês ou espanhol, até um máximo de 20 pessoas por grupo. Os preços começam nos 10€ e todos incluem a prova de, pelo menos, dois vinhos premium. 


Mas agora quero muito saber a tua opinião e a tua experiência! Já conhecias esta Casa Museu da José Maria da Fonseca? Conheces e aprecias o turismo enólogo? O que mais chama a tua atenção nesta experiência? Recomendas outras visitas deste género? Conta-me tudo nos comentários abaixo! 

terça-feira, 29 de julho de 2025

#Livros - Na Sombra, de Príncipe Harry

 

Imagem de capa do livro "Na Sombra", de Príncipe Harry, publicado pela Objectiva: retrato em close do rosto do príncipe, com expressão séria e olhar atento, destacando-se pelos detalhes de suas feições e pelo fundo neutro que valoriza a figura central.

Sinopse

Na Sombra transporta imediatamente os leitores para uma das imagens mais impactantes do século XX: dois jovens rapazes, dois príncipes, caminhando atrás do caixão da mãe, cena a que o mundo assistia em comoção - e horror. 

No momento em que Diana, Princesa de Gales, era entregue à sua morada final, milhares de milhões de pessoas perguntavam-se o que estariam os príncipes a pensar e a sentir - e que seria feito deles desse dia em diante. 

Para Harry, chegou finalmente o momento de contar a sua história. 

Com uma honestidade crua e inabalável, Na Sombra é um livro histórico, rico em visão, descoberta, introspeção, sobre o eterno poder do amor sobre a dor. 


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Opinião 

Na Sombra é a autobiografia escrita pelo Príncipe Harry, membro da família real britânica, na qual ele partilha as suas experiências pessoais, desafios e momentos de reflexão ao longo da sua vida. Como filho do príncipe Carlos e da falecida princesa Diana, Harry cresceu sob os holofotes da mídia e enfrentou questões de privacidade, saúde mental e deveres reais desde que se entende por gente. O autor oferece uma perspectiva intimista e honesta sobre a sua trajetória, começando com a sua memória mais traumática da infância, a morte da mãe, desenvolvendo-se com a defesa de causas sociais e a procura complexa pelo seu bem-estar emocional. Temos aqui acesso a uma faceta mais humana e vulnerável dum dos membros mais conhecidos da monarquia britânica, proporcionando-nos uma compreensão mais profunda sobre a sua vida e as suas escolhas, incluindo as mais polémicas. 


Ao abordar temas como luto e saúde mental, o livro oferece uma reflexão relevante, onde destaca a importância de discutir abertamente questões muitas vezes silenciadas por convenções sociais. Harry é o filho mais novo dos então príncipes de Gales, muito conhecido pelo seu envolvimento com causas humanitárias, o seu espírito aventureiro e a sua personalidade franca. Ao longo dos anos, o jovem príncipe ganhou destaque pelo seu trabalho em prol de veteranos de guerra e pela sua decisão de se afastar das funções tradicionais da monarquia com a família que estava a construir e que não parava de ser atacada pela imprensa britânica, sem que tivesse recebido apoio ou protecção por parte da rainha ou do seu pai e irmão. 


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Na obra, o autor aborda temas relacionados com a sua trajetória pessoal, conhecida de todos nós, incluindo a pressão do papel real, as questões de saúde mental, a perda da sua mãe e o trauma que só foi resolver passados muitos anos, e os efeitos do escrutínio público constante, com todos os julgamentos associados. Além disso, também são tratados temas como a luta contra o preconceito e a tentativa de encontrar um equilíbrio entre as suas responsabilidades institucionais e familiares e o seu desejo de liberdade e de justiça. Ao partilhar as suas experiências, algo inaudito para um membro da família real, Harry oferece uma perspectiva íntima sobre os custos emocionais de viver sob os holofotes desde que se nasceu, sem outro motivo que não seja a família que faz parte. 


"Reconhecemos que por fim ia ficar com a mulher que amava, a mulher que sempre amou, a mulher que o Destino terá pretendido que fosse sua desde o início. Qualquer que fosse a amargura ou tristeza que sentíssemos por se fechar outro círculo na história da Mamã, compreendemos que era irrelevante." 


Dividido em capítulos, organizados de forma cronológica, começa na infância e adolescência, passa pelos anos de serviço militar, com as diferentes missões em que participou, até aos desafios que enfrentou quando escolheu a mulher para se casar. Cada capítulo oferece uma visão aprofundada sobre os eventos que moldaram a sua personalidade e as suas escolhas, proporcionando ao leitor uma narrativa reveladora das suas perdas, conquistas e do processo de se afirmar fora do contexto real tradicional. O livro entrega muitos detalhes sobre momentos cruciais, como a trágica morte da sua mãe, que o marcou profundamente desde jovem, e o seu envolvimento nas missões militares, incluindo no Afeganistão. Harry também partilha as suas experiências com os meios de comunicação social e os muitos momentos em que divulgaram mentiras impunemente, com graves consequências para a sua vida privada, familiar e até para a sua saúde mental. 


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Um dos pontos fortes de Na Sombra é a sua honestidade brutal ao revelar detalhes íntimos da sua vida, proporcionando uma perspectiva mais completa e colocando-se numa posição vulnerável que cativa o leitor. Além disso, o livro apresenta revelações surpreendentes sobre os bastidores da realeza e da vida familiar numa família fora do comum, onde as rivalidades, por vezes, ultrapassam os laços de amor que deveriam prevalecer. Com um olhar sincero e muitas vezes inesperado, apresenta uma escrita envolvente e directa, o que muito facilita a conexão emocional e torna a leitura fluida e acessível. Deste modo, conseguimos obter uma compreensão aprofundada da história pessoal do autor, com aspectos muitas vezes deturpados pela mídia, permitindo que o nosso olhar seja mais humano e empático para com esta figura controversa. 


"Não era por uma questão de prodigalidade que o Pai me apoiava e  Willy, e às nossas famílias, financeiramente. Era a sua obrigação. Essa era a questão. Concordámos em servir o monarca, ir para onde nos enviassem, fazer tudo o que nos fosse dito, abdicar da nossa autonomia, manter permanentemente as mãos e os pés dentro da gaiola dourada e, em contrapartida, os guardiões da gaiola concordavam em dar-nos cama, mesa e roupa lavada." 


É verdade que este será o ponto de vista de um dos lados da narrativa, mas não deixa de provocar uma mudança na nossa percepção acerca da realeza e do próprio príncipe. O livro humaniza a sua figura, mostrando as suas emoções mais íntimas e as pressões que acompanharam a sua vida sob constante escrutínio, desafiando a visão idealizada e enaltecida que muito têm sobre a família real britânica. Ao concluir esta leitura, tenho de refletir sobre a profundidade das suas experiências e a coragem que precisou para partilhar momentos tão pessoais com todo o mundo. Só posso recomendar a leitura para leitores interessados em biografias, livros de memórias e admiradores da realeza e das tradições que lhe estão associadas. Claro, que também vai atrair os inúmeros fãs da icónica Princesa Diana e os curiosos sobre o que aconteceu com a entrada de Megan na família e a tempestuosa saída do casal de Inglaterra. 


Agora, quero muito saber a tua opinião! Já leste Na Sombra? Como a narrativa te impactou? Que momentos mais chamaram a tua atenção? O que mais te surpreendeu? Conta-me tudo nos comentários! 


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Wook | Bertrand 

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Projecto Cinema - 1966 | Música no Coração

 

Imagem de uma película de filme clássica sobre um fundo branco, representando a magia do cinema e celebrando o vencedor do Oscar de Melhor Filme de 1966, "Música no Coração".

Continuamos a revisitar os filmes vencedores do Óscar que já conhecia e que consistiu num rever da obra para acordar as memórias que já tinha. O projecto já conheces, e hoje vamos revisitar o vencedor de 1966, com o filme Música no Coração, uma obra que captura uma época e valores que continuam a encantar e inspirar até hoje. O filme foi lançado em 1965 e é considerado um verdadeiro clássico da história do Cinema. Dirigido por Robert Wise e baseado na aclamada peça da Broadway, narra a encantadora história da noviça Maria, interpretada por Julie Andrews, que vai trabalhar como governanta na casa da família Von Trapp, que vive na Áustria durante o período que antecede o gatilho que vai despoletar a Segunda Guerra Mundial. 


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Com as suas canções inesquecíveis, cenários deslumbrantes e uma mistura de drama, romance e esperança, Música no Coração conquistou o coração de milhares ao redor do mundo, consolidando-se como uma obra atemporal que combina música, narrativa emocionante e uma representação encantadora da coragem e do amor familiar. Na época do lançamento, foi amplamente reconhecido pela sua abordagem sensível e pela poderosa banda sonora, que conquistou o público e a crítica. No Cinema mundial, a década de 60 foi um período de transformação e inovação, marcada pelo surgimento de novas formas de narrativa e pela intensificação da experimentação artística. Hollywood procurava renovar o seu estilo diante da concorrência de novos cinemas internacionais e do crescimento da televisão. No fundo, o sucesso do filme na época reflete uma busca por valores familiares, que provocou identificação no público e, de lá para cá, consolidou-se como um marco no Cinema que transcendeu a simples diversão para se tornar uma expressão artística de resiliência e esperança. 


Acompanha todo o desenrolar do Projecto Cinema - Óscar de Melhor Filme 


Em Música no Coração, acompanhamos a encantadora história da família Von Trapp, composta pelo capitão, viúvo e pai de sete filhos, que vivem sob o regime rígido e autoritário deste militar. Vendo-se sozinho com os filhos, rege as crianças como faria num quartel. A chegada de Maria, a noviça enviada para cuidar das crianças, transforma as suas vidas de forma inesperada, trazendo alegria, música e esperança para este lar. À medida que a relação entre Maria e as crianças se fortalece, o amor surge, mas também são obrigados a enfrentar inúmeros desafios, fruto da ameaça crescente do regime nazista na Áustria. Quando a situação se torna insustentável, a família decide fugir, embarcando numa emocionante aventura repleta de coragem e esperança num futuro melhor. A história celebra valores universais, como o amor, a coragem, a esperança, a música e a família. 


Pôster do filme "Música no Coração" (The Sound of Music), vencedor do Oscar de Melhor Filme em 1966, mostrando Maria (Julie Andrews) e as crianças da família von Trapp em um cenário ao ar livre com cores vibrantes e um céu claro ao fundo.

O elenco é marcante, liderado pela jovem Julie Andrews, que brilha como Maria, a jovem noviça que transforma o ambiente da família Von Trapp com a sua alegria e talento musical. Ao seu lado, Christopher Plummer interpreta o Capitão Georg Von Trapp, o rígido e apaixonado patriarca da família. O realizador Robert Wise, conhecido o seu talento para criar produções cinematográficas marcantes, trouxe uma abordagem sensível, com uma combinação harmoniosa de narrativa, coreografia e músicas inesquecíveis, que fazem parte do nosso imaginário colectivo. Com uma visão artística apurada, Wise conseguiu captar a essência da história e transmitir emoções profundas, consolidando-se como um dos nomes mais influentes da indústria. As filmagens aconteceram principalmente na Áustria, o que contribuiu para a atmosfera do filme, mas que representou um desafio logístico para a produção. Curiosamente, o filme foi um sucesso tão grande que ajudou a popularizar a Áustria como destino turístico. 


Apesar de ter recebido mais nomeações, no total levou para casa cinco óscares, incluindo Melhor Realizador e Melhor Banda Sonora, além de ter conquistado também o Globo de Ouro e outros prémios menos reconhecidos internacionalmente. É inegável o seu impacto na cultura pop e são muitas as referências que encontramos ainda hoje. O sucesso do filme também contribuiu para a expansão do género musical no Cinema, moldando a forma como este género é percebido até hoje. Baseado numa história real, o filme consegue transmitir uma mensagem universal, o que a tornou numa obra cinematográfica admirada na sua época e um clássico do Cinema que continua a impactar pessoas até hoje. Na verdade, a sua vitória no Óscar de 1966 reflete o reconhecimento do impacto que uma história inspiradora, aliada a uma banda sonora extraordinária, pode ter na cultura e na memória colectiva. 



Se ainda não assististe a Música no Coração, ou se desejas revisitar esta encantadora produção como eu fiz, esta é a desculpa perfeita! Se és subscritora do Disney +, lá poderás ver o filme gratuitamente, mas também está disponível noutras plataformas para alugar. Não deixes de te emocionar com esta família que enfrenta desafios e encontra esperança através da música. A sua combinação de narrativa envolvente, performances memoráveis e músicas inesquecíveis torna-o uma escolha imperdível para quem aprecia filmes que aquecem o coração e que podem ser assistidos por toda a família, com miúdos e graúdos. Não percas a oportunidade de reviver esta obra-prima que continua a inspirar gerações. 


Agora, quero muito saber a tua opinião! Já viste Música no Coração? Ou viste alguma versão de teatro musical? Qual a tua memória mais forte deste filme? Tens alguma música favorita? Conta-me tudo nos comentários abaixo! 

terça-feira, 22 de julho de 2025

#Livros - Hamlet, de William Shakespeare

 

Capa do livro "Hamlet" de William Shakespeare, publicado pela Assírio & Alvim. Fundo azul escuro com uma ilustração de máscara em tom azul claro, transmitindo mistério e teatralidade.

Sinopse

Tradução de Sophia de Mello Breyner Andresen.

«No Hamlet (e a tradução de Sophia torna-o transparente), a progressão da peça segue o processo de amadurecimento do pensamento de uma personagem que à partida é um jovem, um jovem príncipe. As suas descobertas são ainda pueris. Acaba quando perceber o que é o tempo e a morte e a responsabilidade individual, sempre perturbado com a confusão dessa responsabilidade com qualquer coisa que se lhe opõe: o poder. Aí a sua reflexão torna-o adulto, torna-o exemplar, torna-o simbólico.» 

Luis Miguel Cintra, no Prefácio a esta edição


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Opinião 

Hamlet, uma das obras mais célebres de William Shakespeare, é uma tragédia que explora temas universais como a vingança, a loucura e a corrupção moral. Escrita pelo maior dramaturgo da língua inglesa, cuja carreira abrange o final do século XVI e o início do XVII, a peça é considerada uma das maiores realizações do teatro clássico. Afinal, Shakespeare é conhecido pela sua profunda compreensão da natureza humana e pela sua habilidade para criar personagens complexos que permanecem relevantes até aos dias de hoje, prova de que mudamos muito pouco, mesmo passadas centenas de anos. É inegável que a sua obra influenciou gerações de escritores, criando os pilares do teatro como nenhum outro, e que continua a ser estudada e encenada em todo o mundo, consolidando o seu lugar como marco incontornável da literatura universal. 


Escrita durante o período do Renascimento inglês, uma época marcada por intensas transformações culturais, artísticas e filosóficas na Europa. A peça reflete as inquietações do homem renascentista, sobretudo no que toca às dúvidas existenciais e à complexidade da condição humana. Literariamente, Hamlet destaca-se pelo seu aprofundamento psicológico, pelo uso inovador do monólogo e pela riqueza das suas figuras de linguagem. A peça narra a tragédia do príncipe da Dinamarca, que deseja vingar a morte do seu pai, o rei Hamlet, assassinado pelo seu próprio irmão, Claudio, que usurpou o trono e se casou com a rainha Gertrudes. Ao longo do texto, o jovem Hamlet luta com dúvidas, conflitos internos e questionamentos morais enquanto procura por justiça, o que leva a uma série de eventos dramáticos, incluindo traições, loucura, mortes e o desfecho trágico. 


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No livro, os temas de vingança e justiça entrelaçam-se de forma complexa e profunda, refletindo as tensões morais e éticas enfrentadas pelos personagens. Afinal, é a vingança que impulsiona a acção da peça e que leva o príncipe a questionar a legitimidade e as consequências dos seus actos. Ao mesmo tempo, o conceito de justiça é apresentado de maneira ambígua, pois a tentativa de corrigir uma injustiça acaba por gerar mais caos e sofrimento, o que coloca em evidência a dificuldade de equilibrar o desejo de vingança com a moralidade e as possíveis consequências de permitir que emoções e desejos impulsivos prevaleçam sobre a racionalidade e a ética. Por outro lado, temos a loucura que aparece tanto como uma manifestação verdadeira quanto como uma estratégia artificial. Hamlet, por exemplo, muitas vezes finge estar louca para melhor investigar a verdade sobre a morte do seu pai, colocando em questão a fronteira ténue entre a sanidade e a loucura. Em contraponto, a insanidade também revela como o peso da responsabilidade, a dor e a dúvida podem corroer a mente humana. 


"Mas o terror de alguma coisa que está depois da morte

- País desconhecido de cujas fronteiras

Nenhum viajante regressa - perturba o nosso desejo

E leva-nos a suportar o mal que temos

E a não voar para males dos quais nada sabemos." 


A peça retrata um ambiente repleto de enganos, conspirações e a quebra de valores morais, onde figuras próximas ao protagonista se traem uns aos outros em busca de poder e vingança. A corrupção, tanto moral quanto política, permeia o reino da Dinamarca, refletindo a decadência do Estado e a decomposição dos princípios éticos. Esta atmosfera de desconfiança e traição intensifica o drama, evidenciando como a corrupção corrompe não só os indivíduos, mas também o tecido social como um todo. Shakespeare também mergulha nas questões do existencialismo e da dúvida, com Hamlet a encarnar a crise existencial quando questiona a própria existência, a moralidade das suas acções e o sentido da vida diante do sofrimento e da injustiça. A sua dúvida constante e hesitação refletem a condição humana de incerteza diante das escolhas e das verdades absolutas, evidenciando um profundo conflito interno que permeia toda a peça. 


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No universo de Hamlet, os personagens apresentam uma profunda complexidade que enriquece a tragédia. O príncipe introspectivo é marcado por dilemas e obriga-nos a refletir sobre a vida, a morte e a justiça, assuntos determinantes da humanidade, seja qual for a época em que vivam. Além do protagonista, outros personagens desempenham papéis cruciais na trama, cada um revelando camadas de complexidade e contribuindo para a tensão dramática da peça. Tanto Gertrudes, a rainha cuja lealdade permanece ambivalente, quanto o rei Cláudio, astuto e manipulador, cuja ambição e corrupção representam o mal encarnado na peça, ou Ophélia, personagem trágica que simboliza a fragilidade e a vulnerabilidade feminina, ilustram as múltiplas facetas da condição humana. De forma brilhante, Shakespeare utiliza monólogos internos, diálogos subtis e acções contraditórias para explorar toda esta riqueza psicológica, permitindo ao espectador ou, neste caso, ao leitor compreender as motivações e os conflitos internos dos seus personagens de maneira detalhada. 


"Ele é assim e como ele conheço muitos da mesma espécie que a nossa época grosseira adora - treinam-se em mundanismos, apanham só o tom do tempo e da moda, uma espécie de sabedoria fútil que os promove e os faz trepar através das opiniões mais profundas e escolhidas, mas se, para os pores à prova, lhes soprares, as bolhas desaparecem." 


As características do estilo de William Shakespeare, evidentes em Hamlet, incluem uma linguagem rica e poética, marcada pelo uso frequente de metáforas, trocadilhos e jogos de palavras que enriquecem o texto e aprofundam os significados. Combina momentos de grande dramaticidade com diálogos inteligentes e irónicos, refletindo uma maestria na manipulação do verso e na criação de cenas carregadas de simbolismo e ambiguidade, que se tornaram ícones da cultura popular até aos dias de hoje. A linguagem utilizada desempenha também um papel fundamental na criação da atmosfera sombria, introspectiva e tensa que vai crescendo ao longo de toda a peça. Como um das obras mais célebres de Shakespeare, a peça estabeleceu padrões para o teatro e a dramaturgia, influenciando inúmeras gerações de escritores e artistas ao redor do mundo. No fundo, é a prova de que só é possível tornar-se uma obra atemporal quando se colocam as questões e dilemas pertinentes para a compreensão do comportamento humano, que permaneceram actuais em diferentes épocas e culturas. 


É impossível ficar indiferente aos encantos desta peça, seja pela riqueza dos personagens, pelo seu desenvolvimento psicológico, seja pelo estilo único do autor. A minha edição é bilíngue e permitiu-me alternar a leitura no original com a tradução, o que me permitiu compreender melhor os desafios enfrentados por quem se atreve a traduzir estas obras, e a ter consciência da riqueza da linguagem em inglês. Acho que não seria capaz de retirar todo o proveito se tivesse lido apenas no original, embora não possa dizer que seja verdadeiramente impossível com um bom nível de inglês e algum hábito e esforço. Em suma, não é à toa que permaneceu relevante ao longo dos séculos, tendo conquistado pela sua profundidade filosófica e pela sua abordagem artística sofisticada. Se tens receios de começar, só te posso aconselhar que abordes a leitura com mente aberta e muita disposição para refletir. Tenho a certeza que não te vais arrepender. 


Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já leste Hamlet? Ou viste a encenação da peça? Refletiste sobre as questões universais abordadas? Que dilema moral consideras mais relevante nos dias de hoje? Qual a tua cena favorita? Conta-me tudo nos comentários! 


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