Sinopse
«Neste ponto tardio da história, que deve ler o indivíduo que pretende ler?»
O Cânone Ocidental é muito mais do que uma lista de obras que devemos ler - podemos descrevê-lo como uma visão. Combinando erudição com paixão, o autor defende uma cultura escrita unificadora, opõe-se com firmeza à politização da literatura e propõe-nos um guia para os grandes livros e os escritores essenciais de todos os tempos.
Uma obra indispensável para redescobrir as alegrias e riquezas que a leitura dos «melhores dos melhores autores» nos pode proporcionar.
Opinião
Em Cânone Ocidental, Harold Bloom, famoso crítico literário e professor da Universidade de Yale, presenteia-nos com uma obra monumental que não se limita a uma mera lista de obras literárias, mas sim a uma defesa apaixonada e provocativa daquilo que ele considera o cerne da tradição literária ocidental. Publicado originalmente em 1994, o livro nasce da convicção de Bloom de que a leitura atenta e aprofundada dos grandes autores é um caminho essencial para o autoconhecimento e para o desenvolvimento da individualidade, um desafio à própria alma. Com a sua prosa erudita e envolvente, Bloom navega por séculos de literatura, desde a Antiguidade Clássica até ao século XX, apresentando e defendendo os autores que, na sua visão, moldaram o pensamento e a sensibilidade ocidental, ao mesmo tempo que convida o leitor a um diálogo crítico com essa herança.
Longe de ser um mero catálogo de obras, o cânone, tal como defendido por Bloom, representa um conjunto de textos que moldaram a imaginação, a ética e a própria consciência do Ocidente, influenciando profundamente a maneira como nos vemos, nos relacionamos e interpretamos o mundo. Ao mergulhar neste livro, somos convidados a confrontar as fundações do nosso legado cultural, a entender os critérios que definiram o que é considerado "grande" e a refletir sobre o papel duradouro destas obras na formação da identidade individual e coletiva. Afinal, o autor foi um dos mais influentes e prolíficos críticos literários do século XX e início do XXI. Bloom, além de estudioso, foi um provocador, cujas ideias sobre a originalidade, a influência e a "ansiedade da influência" moldaram profundamente o campo da crítica literária e continuam a inspirar e desafiar leitores e académicos em todo o mundo.
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A obra de Harold Bloom desdobra-se numa estrutura ambiciosa e multifacetada, que reflete a própria magnitude do legado literário que se propõe a examinar. O livro organiza-se em torno dum argumento central, desdobrado em capítulos dedicados a figuras literárias seminais, que formam a espinha dorsal do cânone ocidental. Bloom tece uma complexa teia de influências, antagonismos e diálogos intertextuais, evidenciando como a criatividade literária é um processo contínuo de confronto e superação. A estrutura, portanto, é mais um percurso sinuoso do que uma linha recta, guiada pela visão particular do autor sobre as grandes leituras e os autores que, na sua opinião, moldaram de forma indelével a consciência ocidental. O capítulo dedicado a Shakespeare é, sem dúvida, um dos pilares da obra. Bloom não só celebra a genialidade do bardo, mas insere-a num contexto de influência e originalidade, argumentando sobre como Shakespeare moldou a própria concepção de individualidade e do "eu" na literatura ocidental.
"A originalidade é o grande escândalo com que o ressentimento não pode pactuar, e Shakespeare mantém-se o escritor mais original que alguma vez havemos de conhecer."
Outro ponto crucial reside nos capítulos que exploram a tradição romântica, onde a ênfase recai sobre a revolução estética. Aqui, figuras como Wordsworth, Austen e Tolstói são dissecadas, revelando a força da imaginação e a rebelião contra as convenções. Não se pode ignorar a importância dos capítulos que abordam os modernistas como Joyce, Woolf e Kafka. Bloom, com a sua visão crítica, demonstra como estes autores, embora herdeiros duma rica tradição, ousaram reconfigurar a linguagem e a estrutura narrativa, refletindo as angústias e as transformações do século XX. No fundo, Bloom privilegia a força e a originalidade da voz literária, a capacidade dum autor em desafiar os seus predecessores e inovar radicalmente a linguagem e a forma, criando obras de grandeza e originalidade que ecoam através dos séculos, como fontes vivas de conflito e beleza.
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Assim, para Harold Bloom, a verdadeira grandeza dum texto reside na sua capacidade de resistir ao teste do tempo, de demonstrar uma força que transcende as modas e os contextos históricos. Esta força manifesta-se na originalidade intrínseca da obra, na sua capacidade de inovar e de dialogar com as tradições literárias anteriores de maneira a redefini-las. A justificativa central por trás da sua curadoria é a busca pela excelência estética e pela profundidade psicológica, elementos que, segundo ele, permitem que estas obras continuem a tocar em leitores de diferentes gerações e culturas. Bloom argumenta que o cânone não é um corpo estático de textos a serem reverenciados passivamente, mas sim um campo de batalha onde o mérito e a influência são constantemente disputados, e onde a descoberta e a releitura são essenciais para a vitalidade da literatura.
"Freud, seguindo astuciosamente Shakespeare, deu-nos o nosso mapa da mente, mas Kafka fez-nos saber que não devíamos acalentar qualquer esperança de utilizar esse mapa para nos salvarmos, nem mesmo de nós próprios."
Importa destacar o quanto a profundidade e a erudição do autor são palpáveis em cada página. Bloom demonstra um conhecimento enciclopédico da literatura ocidental, traçando conexões intrincadas entre autores, obras e períodos históricos com uma maestria impressionante. Além disso, a linguagem e a paixão contagiante de Bloom transformam o que poderia ser um estudo árido numa experiência literária envolvente. Ele escreve com um fervor que convida o leitor a redescobrir a beleza e a força das obras que moldaram o pensamento e a sensibilidade ocidental. Esta foi uma leitura que expandiu o meu repertório de autores e obras a serem explorados num futuro próximo e ainda me dotou duma lente crítica mais afiada, um pouco mais capaz de discernir a verdadeira força e o impacto duradouro duma obra literária na vasta e vibrante paisagem da cultura ocidental.
Em suma, este livro é um convite provocador à reflexão sobre o que constitui a excelência literária e a sua perene relevância. E tem ainda o aliciante de incluir um autor português, Fernando Pessoa, nesta lista canónica, integrado na Idade Caótica, e que é um deleite ver pelos olhos deste crítico tão conceituado. Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já conhecias este livro e o seu autor? Quais as obras que consideras que precisam ser consideradas como canónicas? Concordas com a seleção de Bloom? Conta-me tudo nos comentários!

