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terça-feira, 17 de março de 2026

#Livros - Ensaio sobre a Lucidez, de José Saramago

 

Imagem da capa do livro "Ensaio sobre a Lucidez" de José Saramago, publicado pela Porto Editora. A capa apresenta um fundo na cor salmão, com o título manuscrito em destaque, transmitindo uma estética simples e impactante que remete à reflexão profunda presente na obra.

Sinopse

Num país indeterminado decorre, com toda a normalidade, um processo eleitoral. No final do dia, contados os votos, verifica-se que na capital cerca de 70% dos eleitores votaram em branco. Repetidas as eleições no domingo seguinte, o número de votos brancos ultrapassa os 80%. 

Receoso e desconfiado, o governo, em vez de se interrogar sobre os motivos que terão os eleitores para votar em branco, decide desencadear uma vasta operação policial para descobrir qual o foco infeccioso que está a minar a sua base política e eliminá-lo. E é assim que se desencadeia um processo de rutura violenta entre o poder político e o povo, cujos interesses aquele deve supostamente servir e não afrontar. 


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Opinião 

José Saramago é uma das figuras mais emblemáticas da Literatura contemporânea e o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prémio Nobel da Literatura, em 1998. A sua obra é marcada por um estilo único, caracterizado pelo uso de frases longas, pontuação inovadora e uma narrativa que mistura o real e o imaginado, convidando o leitor a refletir sobre questões sociais, políticas e filosóficas. Saramago é considerado um mestre na exploração da condição humana, e a sua importância na literatura mundial reside na sua capacidade de transformar temas complexos em histórias acessíveis e profundamente provocativas, influenciando gerações de escritores e leitores ao redor do mundo. 


Assim, Ensaio sobre a Lucidez insere-se na complexa reflexão do autor sobre a condição humana, a política e a sociedade. O livro é uma continuação do Ensaio sobre a Cegueira e explora temas de consciência coletiva, poder e a fragilidade das instituições democráticas. A narrativa apresenta uma cidade que, surpreendentemente, realiza uma votação em que a maioria dos cidadãos decide votar em branco, levando a uma crise de autoridade e questionamentos sobre a legitimação do poder. Deste modo, a obra investiga os limites da razão, a importância da consciência cidadã e as dinâmicas de manipulação social, reafirmando o seu interesse por questões éticas e políticas através duma prosa que mistura o realismo e a reflexão filosófica. 


Podes ler também a minha opinião sobre Ensaio sobre a Cegueira 


No fundo, o livro explora as implicações desta eleição incomum, onde os resultados se repetem por duas vezes. Esta acção inesperada provoca uma série de reacções por parte das autoridades, levando a uma crise de confiança e a represálias cada vez mais agressivas contra os habitantes da cidade. Publicado em 2004, foi escrito numa época em que já se percebiam as tensões e os desafios do século XXI. Saramago utiliza a narrativa do livro para explorar temas como a manipulação eleitoral, a alienação da população e a fragilidade da democracia diante de acções aparentemente irracionais, como a votação em massa duma cidade que decide votar em branco. Como tal, a obra dialoga directamente com o clima de inquietação e reflexão sobre o papel do cidadão na sociedade contemporânea, refletindo uma preocupação de Saramago com o fortalecimento ou fragilização da democracia em tempos de crise e de perda de confiança nas instituições políticas tradicionais. 


"É regra invariável do poder que, às cabeças, o melhor será cortá-las antes que comecem a pensar, depois pode ser demasiado tarde." 


Neste livro, Saramago evidencia uma sociedade fragilizada pelas suas próprias contradições e pelo desgoverno. A narrativa, que retrata esta eleição surpreendente, simboliza uma profunda insatisfação popular e uma crise de confiança nas instituições políticas. A partir deste evento, o autor expõe as tensões entre o poder e a população, revelando como a manipulação, a alienação e a falta de transparência contribuem para a deterioração do tecido social. Portanto, José Saramago utiliza a narrativa para denunciar a fragilidade da democracia e convidar à reflexão sobre a consciência cívica e sobre o papel do cidadão na construção duma sociedade mais justa e transparente. Além disso, o autor questiona até que ponto a vontade popular é realmente considerada e expõe as estratégias de manipulação que podem minar a legitimidade do poder, demonstrando a fragilidade das democracias frente a forças que procuram controlá-las por meios subtis ou coercivos. 


Podes ler ainda a minha opinião sobre Levantado do Chão 


A obra também explora a fragilidade da racionalidade diante de eventos aparentemente irracionais, revelando como o comportamento coletivo muitas vezes desafia a lógica individual. Da mesma forma que utilizou a metáfora da cegueira no livro anterior, agora aplica a metáfora da lucidez para explorar as dinâmicas sociais e políticas que permeiam a sociedade contemporânea. Afinal, a lucidez surge como uma força de resistência e reflexão, onde se destaca a importância da consciência crítica e do entendimento para desafiar o status quo. Também importa referir o impacto que tem reencontrarmos algumas das personagens que acompanhamos no primeiro ensaio, como a mulher do médico ou o cão das lágrimas. Apesar de demorar para que isto aconteça, o impacto é grande e o que acontece a partir daí é perturbador, para dizer o mínimo. E, não querendo dar spoilers, só posso dizer que o final do livro é de nos deixar de rastos e surpreendeu-me como poucas vezes acontece. 


"a mais segura diferença que poderíamos estabelecer entre as pessoas não seria dividi-las em espertas e estúpidas, mas em espertas e demasiado espertas, com as estúpidas fazemos o que quisermos, com as espertas a solução é pô-las ao nosso serviço, ao passo que as demasiado espertas, mesmo quando estão do nosso lado, são intrinsecamente perigosas."


O autor apresenta um estilo caracterizado por um fluxo de consciência que permeia a sua narrativa e que proporciona uma leitura fluida e envolvente. A pontuação, muitas vezes, desafia as convenções tradicionais, utilizando frases longas e a ausência de sinais de pontuação convencionais, para além de vírgulas e pontos finais, contribui para um ritmo contínuo e uma maior imersão no pensamento dos personagens. Além disso, Saramago emprega humor e ironia de forma subtil e inteligente, muitas vezes criticando a sociedade, o poder e as instituições com uma leveza que revela a sua visão aguçada e crítica do mundo. Estes elementos combinados conferem ao seu estilo uma marca distintiva, que mistura a profundidade filosófica com uma escrita inovadora e cheia de nuances. 


Quer-me parecer que toda a obra de José Saramago desempenha um papel fundamental na Literatura do mundo e este não é excepção. Como sempre, obriga-nos a sair da nossa bolha e pensar em assuntos que desvalorizamos ou nem vemos enquanto estamos a viver as nossas vidas. Com a sua narrativa instigante e provocadora, Ensaio sobre a Lucidez estimula o pensamento e abala as nossas convicções, numa viagem que, a dada altura, fica impossível de parar. Portanto, se procuras uma obra que te provoque e estimule, tens aqui a dupla perfeita. Não percas a oportunidade de te deixares envolver por esta narrativa poderosa, que certamente deixará uma marca duradoura na tua forma de ver o mundo. Mas agora quero muito saber a tua opinião! Já leste este livro de Saramago? Que pensamentos te despertou esta narrativa poderosa? O que sentiste com aquele final perturbador? Conta-me tudo nos comentários! 


Encomenda o teu exemplar através dos links abaixo, sem custos adicionais para ti, e contribui para as próximas leituras deste blog 


Wook | Bertrand 

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