Sinopse
Anna Karénina é um retrato ímpar, na sua riqueza e densidade, da sociedade russa de finais do século XIX, que abrange diferentes estratos da população, actividades sociais, tendências ideológicas, polémicas económicas, sociais e políticas, e que encerra uma crítica acutilante à nova aristocracia russa da época. Os dramas familiares, com os seus problemas morais e a sua busca de um modelo perfeito para a vida conjugal, surgem em franca ligação com o panorama geral da vida, o sistema de valores, os hábitos, os conceitos éticos e religiosos. Mas esta é também uma das maiores histórias de amor da literatura universal, e uma das mais trágicas, protagonizada por Anna Karénina, a bela mulher de um aristocrata muito rico, e o conde Vrônski, um galante oficial do Exército.
Com Anna Karénina, Lev Tolstói elevou à perfeição o romance de realismo social e criou uma das heroínas mais amadas de todos os tempos da literatura.
Opinião
Anna Karénina, obra-prima de Lev Tolstói, é uma narrativa profunda e complexa e marca a minha estreia com este autor clássico. Publicado originalmente em capítulos entre 1872 e 1877, o livro é considerado um dos maiores romances da literatura mundial. Tolstói, famoso escritor russo do século XIX, foi também filósofo, novelista e pensador social, cujas obras refletem as suas reflexões sobre a vida, a fé e a ética. Reconhecido pela sua habilidade para retratar a alma humana com realismo e sensibilidade, Tolstói deixou um legado literário que influencia gerações, e Anna Karénina permanece como uma das suas criações mais emblemáticas, explorando as complexidades do amor e das convenções sociais numa sociedade em transformação.
A obra foi escrita durante o século XIX, numa época de intensas mudanças económicas, do avanço da industrialização e do fortalecimento do movimento literário realista, que procurava retratar a vida de forma fiel e detalhada. Tolstói, uma das maiores figuras do realismo russo, utilizou a sua narrativa para explorar temas complexos como a moralidade, a sociedade, o amor e o destino, refletindo bem as contradições duma Rússia em transição. No livro, é narrada a complexa e trágica história de Anna, uma mulher da alta sociedade russa que enfrenta o conflito entre as suas paixões pessoais e as convenções sociais. Casada com o respeitável Karenin, ela apaixona-se por Vrônski, um oficial do exército, o que a leva numa jornada de amor proibido, ciúmes e desespero. Ao mesmo tempo, o romance também explora as vidas de outros personagens, como Lióvin, que procura significado e felicidade através do trabalho e do relacionamento com a natureza.
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Um dos temas centrais de Anna Karénina é o amor e a paixão, que permeiam toda a narrativa e revelam as múltiplas facetas destas emoções. O livro explora o amor romântico de Anna por Vrônski, uma paixão intensa e proibida que desafia as convenções sociais e os valores morais da época. Ao mesmo tempo, Tolstói apresenta diferentes formas de amor através de personagens como Lióvin e Kitty, levando-nos a refletir sobre a procura pela felicidade e por conexão verdadeira. A obra quer demonstrar como o amor, quando impulsivo ou mal compreendido, pode levar à tragédia, enquanto o amor verdadeiro, baseado na compreensão e na sinceridade, oferece esperança e redenção. Por outro lado, a moralidade e a sociedade desempenham papéis fundamentais na construção da narrativa. Através do destino de Anna, que desafia as normas morais da alta sociedade russa, o autor questiona a hipocrisia e a rigidez dos padrões morais vigentes.
"O marido, o marido enganado, que até agora parecia uma criatura miserável, um empecilho casual e um pouco cómico da sua felicidade, foi subitamente chamado por ela própria, elevado a umas alturas que incutiam reverência e, nessas alturas, o marido não se mostrou maldoso nem falso, nem ridículo, mas bondoso, simples e majestoso."
A nossa protagonista, Anna Karénina, é uma personagem complexa e apaixonada, cuja personalidade é marcada por uma forte mistura de sensibilidade, elegância e intensidade emocional. Como uma mulher de beleza arrebatadora e inteligência aguçada, ela procura a realização pessoal e a felicidade, embora a sua trajetória seja permeada por conflitos internos e sociais. Anna apaixona-se profundamente por Vrônski, o que a leva a desafiar as convenções da sociedade aristocrática russa da época, demonstrando uma coragem emocional que contrasta com a sua vulnerabilidade. A sua personalidade revela uma mulher de grande força interior, capaz de amar intensamente, mas também de sofrer profundamente diante das imposições sociais e das suas próprias emoções, tornando-a uma figura trágica e memorável na literatura universal. No entanto, parece-me importante ressalvar que a única culpada do seu triste fim é ela mesma, talvez por idealizar o amor de forma irrealista ou esperar do seu objecto amado atitudes absurdas e que a coloquem como o seu único interesse na vida.
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Por seu lado, no desenvolvimento do Conde Vrônski observamos uma transformação complexa e profunda. Inicialmente, ele é retratado como um jovem oficial ambicioso, disciplinado e dedicado à carreira militar, com uma forte determinação de conquistar o seu espaço na sociedade. A sua paixão por Anna surge como uma força avassaladora que desafia os seus valores e prioridades, levando-o a uma crise interna e a um conflito entre o dever e o desejo. Ao longo da narrativa, Vrônski passa por momentos de dúvida, arrependimento, angústia e autoconhecimento, refletindo sobre as suas acções e as suas consequências, sobretudo para a mulher amada. A sua jornada revela um homem dividido entre o amor intenso e as obrigações sociais, colocando a nu as suas emoções e o seu desejo de reconhecer a filha que nasceu desse amor. Em contraponto, o marido de Anna, que também lhe tinha amor, está longe de ser o monstro insensível que a impede de ser feliz. Quando esteve à beira da morte, foi capaz de a perdoar e de amar uma criança que não podia ser sua. Estava capaz de lhe dar o divórcio, que lhe iria permitir sair daquela situação indefinida que a colocava à margem da sociedade. Mas Anna parecia estar constantemente a autosabotar a sua felicidade, sempre pronta para colocar as culpas no marido traído.
"Quanto a Vrônski, apesar de ver cumprido cabalmente o seu desejo antigo, não era feliz por completo. Deu-se conta, muito depressa, de que a satisfação do seu desejo não passava de um grão de areia no monte da felicidade por que ansiara, pondo-lhe a nu o eterno erro das pessoas ao imaginarem que a felicidade consiste na realização do desejo."
Mas a história não gira apenas em torno deste triângulo amoroso conturbado. Também Lióvin é um dos personagens centrais, peculiar pela sua relação com a terra, com o trabalho agrícola e com a moralidade, e que tem o desejo de escrever um livro onde expõe a sua teoria sobre estes temas e a partilha com o mundo. A sua jornada introspectiva revela uma tentativa de compreender o propósito da existência, contrastando com as complexidades das paixões e dos conflitos superficiais dos que o rodeiam, incluindo até a sua esposa, Kitty. Os capítulos onde se passeia pelas suas convicções tornam-se aborrecidos em certos momentos, mas conferem ao personagem uma dimensão filosófica, tornando-se até uma espécie de alter ego de Tolstói. Como seu contraponto, temos a família dos seus cunhados, os Oblônski. Stepan é uma figura leve e bem superficial, que vive sem pensar nas consequências, sem ver maldade ou inconveniente nas suas atitudes, enquanto a sua esposa, Dária, torna-se numa mulher envelhecida precocemente pelas sucessivas gravidezes, amarga e desiludida com o marido e com as suas infidelidades, mas incapaz de o abandonar e procurar viver por sua conta.
A escrita de Tolstói caracteriza-se pela sua profundidade psicológica, realismo detalhado e uma narrativa que combina descrição minucioso com diálogos naturais. O autor tem uma habilidade ímpar de explorar as emoções e motivações dos seus personagens, criando uma ligação íntima entre o leitor e as suas personalidades complexas. A obra provoca no leitor uma profunda reflexão sobre os dilemas morais, as complexidades das relações humanas e as consequências das escolhas individuais. Anna Karénina dialoga com temas universais como o amor, a infidelidade, a busca por felicidade e o conflito entre desejos pessoais e convenções sociais, aspectos que permanecem relevantes na sociedade contemporânea. Para terminar, só posso elogiar esta obra-prima, que nos entrega personagens profundamente humanos e conflitos emocionais intensos, que além de ser uma das histórias de paixão e tragédia mais icónicas de sempre, é ainda um retrato crítico duma época.
Mas agora, quero muito saber a tua opinião! Não te pergunto se conheces, mas se já leste Anna Karénina? Qual o momento que mais te impactou? Tens algum personagem favorito? O que achaste do final da Anna? Conta-me tudo nos comentários!


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